É estranho entrar no quarto do filho e sentir que você cruzou uma fronteira internacional sem passaporte e sem falar a língua estrangeira. De um lado, você com suas palavras estruturadas, sua tentativa de diálogo e seu desejo de profundidade. Do outro, um filho gritando "SIX SEVEN!" O primeiro impacto é um misto de "onde foi que eu errei?" com um "o que está acontecendo com esse cérebro?".
Como mãe e profissional que escuta crianças e adolescentes todos os dias, preciso te dizer: respira. O que estão chamando de brain rot, uma espécie de "deterioração" do cérebro, esvaziando o sentido das coisas, não é o fim da inteligência como a conhecemos. É, na verdade, um dialeto novo.
O Choque Geracional: A Língua da Mãe vs. A Língua do "Six Seven"
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Nós, os pais da geração six seven, valorizamos a construção do sentido, a gente quer entender o porquê, a origem, o significado. Eles estão mergulhados no puro imediatismo da imagem e do som, quando repetem esses memes sem nexo, não estão tentando dizer algo profundo, estão apenas "sendo" parte de algo.
Por que os adolescentes repetem memes sem nexo?
Um dos desafios talvez seja: como manter a ponte relacional familiar quando falamos línguas tão diferentes? A "língua da mãe" busca conexão, história e cuidado. A "língua do 6 7" busca o impacto, o riso rápido e a validação do grupo. Não se trata de falta de cuidado, de educação, de respeito ou limites; às vezes é falta de tradução.
Quando a Internet deixa de ser Ferramenta e vira Ambiente
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Não dá para ignorar que o ambiente mudou. A internet não é mais uma ferramenta que eles usam, é o lugar onde eles vivem. E esse é um lugar barulhento, bagunçado, muitas vezes, vazio de simbolismo.
Se o ambiente em que a criança cresce é excessivamente invadido por esse ritmo frenético das telas, o espaço para a criatividade própria, aquela que nasce do tédio e do silêncio, acaba ficando espremido. O problema não é o meme em si, mas quando os memes são a única forma de expressão que sobra. Quando a criança perde a capacidade de brincar e falar com o que é dela, da sua própria invenção, e passa apenas a reproduzir o que os outros repetem.
Brain Rot ou Apenas uma Fase? Identificando Sinais de Alerta
Aí entra a nossa sensibilidade. Como saber se o "Six Seven" é só uma fase boba ou se há algo mais?
O isolamento como o verdadeiro sintoma
O sinal de alerta não é a gíria ou o gesto, mas o isolamento. Enquanto seu filho grita o meme, mas ainda consegue olhar nos seus olhos, ainda se frustra, ainda pede colo ou briga por espaço, o desenvolvimento está seguindo seu curso. O alerta acende quando a tela deixa de ser uma diversão e vira um refúgio exclusivo. Se o mundo real começa a parecer pouco ou insuportável demais, e a criança parece perder aquela capacidade de criar suas próprias soluções para os problemas, talvez seja a hora de buscar uma escuta externa.
A ajuda profissional não serve para "consertar" a criança ou fazê-la parar de seguir memes, mas para devolver a ela o protagonismo da própria vida, ajudando-a a separar o eu e o outro, o que vem da internet do que é ser ela, sua essência.
Maternidade Real: Como ser a "Mãe Possível" no Caos Digital
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Não tente ser a tradutora perfeita de todos os memes. Você não precisa gostar do "6 7", e tudo bem achar um pouco ridículo. O que eles precisam não é de uma mãe que saiba fazer o gesto do braço, mas de uma mãe que suporte o estranhamento.
A maternidade contemporânea é esse exercício constante de não querer ser aquela que tem conhecimento geral sobre o mundo deles, ao mesmo tempo, não se fechar na nossa própria torre.
Entre um grito de "Six Seven" e uma conversa no jantar, existe um espaço de convivência que é só de vocês. É nesse intervalo, onde o sentido parece faltar, que a gente constrói o que realmente importa: a presença que sobrevive a qualquer trend.
Escrito por Daiane Romano Psi
Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.