"Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento" (Clarice Lispector, 1992).
E assim inicio minha breve fala sobre uma personalidade que traz muitas horas de análise, estudos, supervisão além do manejo clínico, o que muitos não entendem ao se deparar com pessoas limítrofes é a forma de como se é ultrapassada todas as barreiras do psiquismo em ser um individuo capaz de fazer parte de um todo e ao mesmo tempo se achar um nada.
O que é o estado-limite?
Borderline ou estado-limite está dentro do campo da neurose e psicose. Entre dos estudos psicanalíticos compreende-se essa organização de personalidade a partir de uma etiologia que foca em traumas que ocorreram precocemente, e como a construção da autoimagem é consolidada de maneira frágil e cheia de desafios.
Mudanças frequentes de humor, impulsividade e instabilidade nas emoções e nos relacionamentos estão entre as características deste transtorno de personalidade. A pessoa com esse diagnóstico geralmente apresenta uma hipersensibilidade em suas relações e um medo intenso de abandono.
Mas como a psicanálise vê esses sintomas?
O transtorno de personalidade borderline é uma psicopatologia marcada, por sintomas de padrões generalizados de instabilidade e de hipersensibilidade nos relacionamentos interpessoais e na autoimagem, caracterizados por flutuações extremas de humor e instabilidade emocional.
Pacientes com transtorno de personalidade borderline não toleram estar sozinhos; fazem esforços frenéticos para evitar o abandono e geram crises, como tentativas suicidas, para chamar a atenção, de tal forma que levam os outros a resgatá-los e cuidar deles.
A Síndrome Borderline apresenta algumas comorbidades, tais quais: depressão, transtorno de ansiedade, transtorno de humor, transtorno de personalidade, transtornos alimentares e transtornos de uso de fármacos.
O limite entre a neurose e a psicose
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Em 1950 a comunidade ligada diretamente a saúde mental começou a notar essa limitação entre neurose e psicose, devido inúmeros pacientes que pareciam ter um caráter perturbado, porém de forma caótica.
Raras as vezes eles apareciam apresentar sofrer com alguns traços da psicopatia, mas ainda não podendo ser considerados como psicóticos, porém, se por um lado lhes faltava a consciência por sofrer de uma escala maior e menos compreensível do que um paciente neurótico, do outro sofrem certos tipos de alucinações ou ilusões diante sua realidade.
Dentro de um processo terapêutico são pessoas que podem apresentar traços semelhantes aos psicóticos, podemos citar como exemplo: a comparação do terapeuta com as mães deles, e fora de tratamento apresentar uma estranha estabilidade em suas instabilidades. Em outras palavras: para muitos são considerados “muito sãos” “saudáveis” para serem considerados como “loucos”, e muito “loucos” para serem considerados “sãos”.
As defesas primitivas do paciente Borderline
O conceito borderline como nível de funcionamento psicológico envolveu décadas de experiência clínica, tendo por fim adquirido a descrição de uma instável estabilidade no limite dos níveis neurótico e psicótico, caracterizada por uma dependência das defesas primitivas sem uma total perda do teste de realidade. (Kernberg, 1975)
Dentro da psicanálise quando falamos de defesas primitivas, estamos falando dos estágios infantis de Freud em termos de tarefa interpessoal da criança, onde os pacientes podem ser conceitualizados como fixados em suas questões de dependências primárias como: confiança versus falta de confiança, questões secundárias de individualização-separação como: autonomia versus vergonha e dúvida.
Fatores de risco e causas do Borderline
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Estudos mostram que a etiologia da doença pode ser determinada por dois fatores:
Estresse durante a infância, histórico de abuso físico e sexual, negligência por parte dos cuidadores, e uma grande perda (dos pais, avós, figuras importantes etc.);
Tendência genética de ter respostas patológicas a fatores estressantes advindos do mundo exterior/meio-ambiente;
O temor do abandono e as oscilações de humor
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Os pacientes com transtorno de personalidade borderline, quando acreditam que estão sendo abandonados ou negligenciados, sentem um medo intenso, seguido de raiva, tendo episódios de pânico e de fúria em situações tipicamente normais, como por exemplo, o sujeito vai se encontrar com alguém importante e este alguém se atrasa ou cancela o compromisso feito com eles, já é o suficiente para alterações emocionais indo ao extremo da sua dor.
O temor do abandono e o medo de se sentir só advém da ideia de que eles não são suficientes bons e que são de certa forma, ruins.
Por outro lado, a pessoa que sofre desse transtorno apresenta uma série de mudanças em seu humor, se alterando de forma abrupta e dramática: isso reflete um pensamento maniqueísta, tão presente nesta psicopatologia, marcando a divisão abrupta que eles têm entre o bem e o mal.
Apesar disso, os pacientes com transtorno de personalidade borderline podem sentir empatia, exercendo o cuidado a um outro indivíduo, mas isso só acontece caso a pessoa que seja portadora do transtorno tenha a certeza que a pessoa a ser cuidada estará sempre disponível para ela.
Raiva, autossabotagem e impulsividade
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A dificuldade de controlar sua raiva também é algo presente entre as pessoas que tem borderline e, muitas vezes essas pessoas são tomadas como inadequadas e intensamente irritadiças. Eles expressam sua raiva com sarcasmo cortante, amargura ou falação irritada, muitas vezes direcionada ao cuidador ou amante por negligência ou abandono. Após a explosão, eles muitas vezes sentem vergonha e culpa, reforçando seus sentimentos de que são maus.
A mudança abrupta também é percebida quando o assunto é sua autoimagem, sendo evidenciada pela mudança súbita dos seus objetivos, valores, opiniões, carreiras ou amigos.
As mudanças de humor, características a esta psicopatologia, costumam durar apenas algumas horas, refletindo a extrema sensibilidade dessas pessoas.
A autossabotagem também podem ser uma marca desses pacientes, visto que, quando estão prestes a alcançar um objetivo é comum que ele os abandone (por exemplo, abandonar a faculdade faltando um semestre para formatura, arruinar um relacionamento promissor, se demitir de um trabalho onde está prestes a mudar de cargo).
A impulsividade associada a psicopatologia é comum: essas pessoas podem ser apostadores de jogos, podem praticar sexo sem segurança, dirigir de forma imprudente, ter comportamentos suicidas e de automutilação.
Além disso, há episódios dissociativos, pensamentos paranoicos e, às vezes, sintomas do tipo psicótico (por exemplo, alucinações e delírios) que podem ser desencadeados por estresse extremo, normalmente o medo de abandono, seja real ou imaginado. Esses sintomas são temporários e não costumam ser graves o suficiente para que sejam considerados um transtorno separado. Os sintomas diminuem na maioria dos pacientes; a recidiva é baixa. Mas o estado funcional não costuma melhorar dramaticamente.
Tratamento e a importância da ajuda profissional
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O tratamento para esses pacientes, de forma geral, é a união entre a psicoterapia e o uso de fármacos. Alguns aceitam, outros não! Mais o importante é buscar auxílio para ter uma vida mais saudável e plena diante de amigos e família, pois caso contrários os relacionamentos com pessoas que vivem entre os limites entre neurose e psicose pode se tornar difícil e muito complicado.
Viver esta psicopatologia para muitos pode representar apenas um pequeno incomodo, mais para a maioria pode ser extremamente difícil, devastador, além de desafiador, pois leva o indivíduo a viver rápidas oscilações entre o que seria ideal e a desvalorização de relacionamentos, além do sentimento de vazio constante, a pessoa está constantemente entre altos e baixos, a maioria não procura por ajuda, mas ao longo da vida tornam-se solitários emocionalmente por existir sempre um profundo medo de ser rejeitado e abandonado, o que leva aos comportamentos impulsivos somente para manter todos a sua volta.
Lucelia Perez
Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.