Nunca foi tão fácil fazer um diagnóstico, principalmente “se autodiagnosticar” automaticamente quando o assunto é transtorno ou doença, o que veio para ajudar a humanidade agora parece estar prejudicando cada vez mais, o acesso a informação possibilita qualquer pessoa pesquisar tudo sobre o que sente, seja emocional ou fisicamente.
A Inteligência Artificial e a Saúde Mental
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A inteligência artificial possibilita ver o mundo diante dos mais diversos cenários, tirar dúvidas, questionar a vida, conversar e saber de tudo o que não se sabe relacionado ao trabalho, escola relacionamentos e principalmente saúde, eu diria que ela é uma verdadeira enciclopédia virtual, a versão da “Enciclopédia Barsa” utilizada há anos atrás, só que ela tem acesso a todo o tipo de conhecimento uma vez exposto pela humanidade em um único clique, ou melhor uma única pergunta, além de tirar dúvidas, ela direciona, esclarece, alivia, a IA não é de todo ruim porque também favorece o trabalho de muitos profissionais incluindo os da saúde em geral, ela ajuda com relatórios, pesquisas e até mesmo com diversas questões relacionadas aos próprios diagnósticos, para um psiquiatra facilita muito ao pesquisar sobre um sintoma e relacionar ele diretamente com os escritos do DSM-5 ou com o CID, ou até mesmo fazendo a descrição de uma consulta psicológica inteira em um processo terapêutico, o que, por outro lado quanto falamos sobre saúde mental, a escuta psicanalítica rompe com esse imediatismo da época, acolhendo o sujeito no seu inteiro teor, dentro do seu tempo, respeitando limites e desejos.
Em um mundo onde todos tem que ser constantemente produtivos, entregar respostas imediatas, e ao mesmo tempo ser felizes, transforma tudo em algo simples, só que não é, em um ambiente de análise o analista oferece um espaço seguro e sem julgamentos ao sujeito. Não temos como objetivo adaptar a pessoa a uma certa normalidade, mas sim, compreender suas faltas e aprender a lidar com elas e com o peso de sua própria história, ajudar a decifrar os seus sonhos e desejos, e neste processo o sujeito é único e indivisível, que carrega uma bagagem gigante de vida que o constituiu até ali, cada fala, sentimento, atitudes estão correlacionadas com algo que aconteceu com ele.
Só que diante dessas novas demandas de ser e viver, existe um abismo que separa o diagnóstico da psicanálise diante das psicoterapias e da psiquiatria. Diante dos tratamentos a sua presença envolve questões cujas suas respostas vão revelar, uma grande variedade de impotências do clínico diante de um mal-estar do paciente que estará a frente das dificuldades frente as demandas ali existentes. Entre as respostas prontas, há um abandono da fala do paciente que assimila o diagnóstico à sua reação diante o uso do medicamento psicotrópico que não é menos controverso ao que se refere ao uso de outras substâncias psicoativas. E quanto mais profissionais da psiquiatria e psicologia se envolvem com os sintomas, mais procuram dispor o ser humano ao seu mal, porém, se torna incompreensível saber ao certo qual a raiz deste mal, ditos subtraídos das novas versões do DSM. O que passaria longe de ser apenas uma melhoria técnica ou cientifica. Buscar pelo fim do mal-estar da população é algo que se iniciou há muito tempo atrás, direcionada e impulsionada pelos psicotrópicos espalhados por toda uma civilização e calcada pelas indústrias farmacêuticas que cada dia fazem mais e mais pesquisas para evoluir tal prática.
Por que Estamos Cada Vez Mais Ansiosos e Frustrados?
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A contemporaneidade impõe cada vez mais uma satisfação totalmente imperativa, mesmo parecendo diferente (Lacan, 1988) já dizia o quanto a cultura moderna estava impondo ao individuo certos comportamentos e o quanto ficava cada vez mais perceptível essa aceitação, essa adaptação. Estamos cada vez mais vivendo uma intensa e marcante frustração dos desejos, “desejos narcisistas”, que mesmo necessários na vida diante a civilização, vai sempre levar ao mal-estar, Freud dentre suas indagações ao sujeito conseguia identificar sem esforço, traços que levavam a esse mal-estar e o quanto a influência da massa era penetrável a qualquer um. Descrevia os neuróticos como sujeitos que não queriam saber sequer em descrever sua realidade, mas que sustentavam pensamentos ruminantes carregados de cobranças e comparações, hoje podemos dizer que muitos preferem viver se refugiando em suas fantasias devido ao conforto que elas trazem, podemos correlacionar com as sensações produzidas pelos psicotrópicos miraculosos, onde a facilidade ao adquirir remete-se a uma certa exigência, as vezes cruel, as vezes satisfatório por ser fácil, imediata e peculiar à cultura vivenciada, mas que muitas vezes trazem alivio além da diversão.
Se uma vez tais sujeitos se encontram em certas situações, como não se iludir ou se divertir facilmente? Afinal de contas é fácil se divertir diante do uso de substâncias que podem trazer modificações em nosso psiquismo, ela tem o poder de mudar o comportamento do homem, agindo sobre o cérebro, adoçando o que está amargo e de difícil digestão. Se uma vez ela é capaz de trazer certo conforto porque não fazer uso delas?
Os Perigos do Autodiagnóstico na Internet
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Por que Buscamos Rótulos para a Nossa Dor Emocional?
Acredito que o mais buscado hoje por um sujeito é o sentimento de completude e felicidade, algo que atualmente parece mais distante do que nunca, aqui poderia relacionar uma série de situações que se encaixariam perfeitamente ao que se refere aos percalços que dificultam alcançar esse objetivo, como por exemplo a grande necessidade do ser visto, do se comparar constantemente, ter um bom cargo na empresa em que trabalha, ser a melhor mãe do mundo, ou o melhor filho aos olhos dos pais, do fazer tudo em excesso, além claro de uma série de traumas reprimidos relacionados ao passado, aparentemente parecem ser coisas simples de resolver, principalmente hoje, que tudo é “normal”. A realidade é que, ignorar tudo isso é mais fácil e prático, mudar de lugar, esconder, disfarçar, ou simplesmente tentar apagar de dentro de nós tais sentimentos reprimidos que são de difícil digestão com um único comprimido e um copo de água. Vai custar caro e esse “normal anormal” uma hora vai cobrar e quanto mais nos afastamos de quem somos maiores serão os juros acrescidos nesta conta cheia de excessos.
Buscar esse padrão coloca todos de frente a uma realidade na qual muitas vezes dói, e acaba adoecendo, as histórias pesam diante disso tudo, e consequentemente estamos diante de pessoas mais ansiosas, depressivas, esgotadas pelo excesso, surgem todos os tipos de sintomas e uma vez sentido as pessoas buscam cada vez mais por um diagnóstico que traga um certo alívio naquilo que se sente mais não se sabe de onde vem, é prático e fácil sabe por quê? Simplesmente pela facilidade na busca de nomear aquilo que se tem, aí a diversão dita acima, se diagnosticar leva ao uso dos psicotrópicos, sejam, o uso de álcool ou de medicação adquirida em qualquer esquina, e quando o sujeito sai a procura de ajuda especializada, por sua vez, se depara diante de alguns profissionais da medicina, que automaticamente vão em busca de identificar a doença a partir de sinais ou sintomas descritos pelo paciente onde ambos automaticamente já estão classificadas e estabelecidas em seus manuais como o CID e o DSM.
O Que é o Sintoma para a Psicanálise?
Dentro da psicanálise, quando um sujeito busca por ajuda, o diagnóstico não é baseado nas classificações externas ou no sintoma ali dito, até mesmo porque sintoma é a maneira que nosso corpo disfarça a verdadeira dor. Longe de ser apenas um erro ou doença a ser erradicada, o sintoma é uma mensagem que traduz um desejo reprimido, funcionando como uma fuga, uma saída ou compromisso que a mente encontra para conseguir lidar com as dores e angústias.
Na análise o foco está na verdade singular de cada sujeito, aquilo que surge diante da sua fala durante o processo analítico. No lugar de encaixar a pessoa em um diagnóstico pronto, na análise o psicanalista escuta com cuidado cada fala, cada passagem de sua história sofrida e busca a compreender o que toda essa dor tem a dizer sobre. Quando deixamos de lado a escuta da subjetividade deste sujeito deixamos de olhar ele como um ser único. Quando um diagnóstico se apoia apenas nos critérios objetivos e biológicos, corre-se o risco de ignorar o que realmente o paciente tem de mais importante que é a sua história, sua linguagem e sua maneira única de vivenciar todo este sofrimento.
Remédio ou Terapia? O Embate Histórico no Tratamento Mental
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Ao olharmos para todo um contexto histórico, sabemos que as civilizações evoluíram com o decorrer dos séculos, da mesma forma problemas relacionados a saúde já eram perceptíveis. Com a evolução a prática e o uso de substâncias naturais passaram a ser utilizadas no auxílio da cura de muitos males. Foram encontradas as mais diversas formas de utilizar as plantas, nas quais seus efeitos traziam muitas sensações estimulantes, sedativas, calmantes e até mesmo inebriantes. A Odisseia de Homero cita trechos onde Helena de Tróia e a Nepenthe, utilizam ervas misturadas em seus vinhos para trazer alívio diante sentimentos melancólicos ou até mesmo ansiedade diante de ressentimentos ou dores. Filósofos como Platão, já descrevia os fármacos como substâncias capazes de alterar o juízo de um sujeito, a ponto de transformá-lo em alguém totalmente diferente e estranho, isso sem falar de substâncias utilizadas para tirar a fome, diminuir a fadiga, criar coragem para se aproximar de outras pessoas, trazer alívio moral e sobretudo atingir o prazer seja ele como tiver que ser. Diante de tais fatos Freud alegava que o sujeito era cheio de dúvidas e distorcia a sua realidade a ponto de se recorrer a tais substâncias simplesmente pela dificuldade ao lidar com o desconforto provindo do mal-estar gerado na vida diante a civilização que constantemente cobra uma postura onde o sujeito seja capaz de fazer e satisfazer seus desejos e necessidades.
Por que o Medicamento Não Substitui a Psicoterapia?
Fato que quando um sujeito faz uso de substâncias psicotrópicas automaticamente se acaba a palavra. Uma vez que a psicanálise é voltada ao uso da palavra do sujeito é que ela se vê galgar diante desta resistência até conseguir os efeitos necessários em análise diante de um sujeito sob a ação de um psicotrópico qualquer – isso é o que buscamos ao falar da inesperada ação entre trocas de palavras e transferência.
A psicanálise é testemunha de que o uso de psicotrópicos não resiste e nem escapa diante a palavra transferencial, no fundo, na maioria das vezes ela depende da ação de cada palavra dita. E por isso que o clínico por sua vez não teria o porquê desistir de responder ao tratamento ali proposto.
O que quero dizer é que a psicanálise não se apoia em uma realidade material e muito menos se sustenta com um saber preestabelecido, mas sim com o que surge diante da fala do paciente. Diferente de técnicas e diagnósticos que estão sob o domínio e critérios biológicos, que são cada vez mais sistemáticas e rigorosas em suas interpretações de sinais que hoje são capturados tecnologicamente a ponto de permitir a identificação das patologias.
Neste ponto desconsideramos que um diagnóstico nunca será decidível ao que se refere a termos científicos e objetivos. Cabe ao sujeito decidir qual o momento em que foi ultrapassado uma linha tolerável de sofrimento e mal-estar. Frente a um sujeito totalmente irredutível e que se encontra diante de tal situação, se responsabilizar pela sua escolha será algo que estará totalmente voltada ao que se é normal ou patológico.
E diante de casos assim a ciência está palpada na obrigação de compreender e explicar ao sujeito, o que ele acredita ser, já a clínica, impõe a terapia como ação, porém todas as especialidades médicas vão definir um diagnóstico antes mesmo de descobrir as terapêuticas, somente a psiquiatria que faz um manejo diferente, que a partir de 1950, sustentam práticas onde podem estabelecer diagnósticos a partir do uso de substâncias farmacológicas e a escolha da psicanálise como suporte em uma situação dessas demandará mais tempo para se obter bons resultados.
Psicanálise ou Psiquiatria: Qual Caminho Escolher?
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Um sujeito tem escolhas e cabe a ele decidir qual será a melhor a ser feita, dependendo da maneira em que ele vá se dirigir a um tratamento, ou pedir atenção, conselhos, um saber, um remédio, ou a cura, as vezes ele pode não saber ao certo o que quer. E são por estes motivos que se faz necessário questionar diante de qualquer demanda, seja um tratamento ou uma solicitação de análise, ou somente o uso de medicamentos. Toda demanda vai vir repleta de falas que se devidamente escutadas, trará algo repetitivo, familiar a quem se dedica plenamente a clínica, que de certa forma o fato se oculta daquilo que realmente o sujeito demanda, e antes mesmo que surja o objeto desta demanda, já se tem uma resposta.
Como Lidar com a Dor Emocional: Escolhas e Responsabilidades
E mesmo que haja inúmeras substâncias capazes de levar o sujeito a negligenciar ou silenciar seus pensamentos, mesmo os mais tensos e ansiosos, e mesmo que haja medicamentos capazes de conter um louco agitado delirante, ou fazer alguém mergulhar em um sono profundo onde sua psique trabalha mais do que o normal entorpecendo idéias melancólicas e sombrias por noites a fim, por que se aprofundar e ir mais longe, se resistimos ao aceitá-las? Se apenas supomos curar nossas moléstias; porque sim as pequenas misérias humanas vão permanecer resistentes dia após dia dentro de uma psique repleta de pensamentos que ruminam a todo segundo.
O que falta é a aceitação diante de um todo, mostrar a esse sujeito que a vida vai pressionar, que a tensão vai se agravar diante de certas situações principalmente quando falamos de prazos, ou simplesmente que lidar com uma amarga tristeza associada a um luto ou só por um desgosto amoroso não tem remédio a não ser sentir e vivenciar essa dor, o tempo que for necessário. Talvez aconselhar diante de uma desilusão do ser amado, ou até mesmo diante do fim de uma experiência em que as frustrações se fizeram mais presentes do que tudo. E por fim, por que não recalcar tudo isso simplesmente com um medicamento ou só sublimar com um belo e precioso conselho de um amigo?
Sim todos temos escolhas, de maneira que umas podem te levar a uma vida com muito mais emoções ao se permitir sentir e experenciar o que tiver de vir, ou claro outras que vão te anestesiar diante de sintomas que vão trazer medos e desconfianças, porém que lhe impedirão de ser quem você realmente deve ser, mas lembre-se a responsabilidade de ambas será somente sua à medida que sua mochila pode ficar mais leve ou mais pesada. Qual delas você escolhe?
Lucelia Perez
Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.