6 de junho de 20267 min de leitura

Como escolher um psicanalista? Entenda a formação, as abordagens e o que esperar da análise

Daiane Romano Psi

Daiane Romano Psi

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Profissional Verificado

Como escolher um psicanalista? Entenda a formação, as abordagens e o que esperar da análise

Apenas saber o que é a psicanálise, não vai te dar as informações que você precisa para escolher seu analista. Mas entender um pouco mais sobre o funcionamento da prática pode te dar uma noção real do que esperar do processo.

Como é a formação profissional e o que é o tripé psicanalítico?

​É fundamental começarmos falando sobre a formação de um psicanalista. Psicanálise é trabalho sério. Cursos de três meses são uma afronta ao conhecimento necessário para trabalhar com essa prática. Uma base sólida de estudos em diversas áreas é necessária para que a pessoa consiga compreender a teoria psicanalítica em si.

​Essa base e o repertório, juntos com o percurso de análise pessoal, é o que vão transformar o analista em alguém preparado para a prática clínica, se ele assim desejar. Muitos profissionais partem para a pesquisa e não fazem atendimentos clínicos depois de um tempo. Mas vale ressaltar que é essencial que os analistas atendam: a experiência prática com os pacientes é insubstituível como bagagem profissional, da mesma forma que a análise e a supervisão.

Por que o repertório cultural da arte e literatura é importante?

Uma escrivaninha de madeira com um livro clássico aberto, óculos e uma xícara de café, simbolizando o repertório cultural e o estudo contínuo do psicanalista.

​O repertório pessoal do analista é o que vai determinar sua autenticidade na clínica e vai nortear o seu trabalho. Quando falamos de repertório pessoal, estamos falando de experiência de vida e também de tudo que o sujeito consome. Arte e literatura são essenciais, além de conhecimentos teóricos sobre a natureza humana, a sociedade e o desenvolvimento, se possível tanto físico, quanto psíquico. O próprio Freud construiu a psicanálise usando a literatura do seu tempo e os clássicos para conseguir explicar o funcionamento da mente. Ele usava peças de Shakespeare, as tragédias gregas como Édipo Rei, e a literatura de Dostoiévski para dar nome e corpo aos conflitos humanos que escutava no consultório.

​Mas o erro de muitos profissionais é achar que o repertório parou no século passado. Nós precisamos ter as nossas próprias referências contemporâneas. O analista de hoje precisa ler a literatura atual, ver o cinema de hoje, entender as produções artísticas e os movimentos da nossa época. É isso o que nos ajuda a escutar o sofrimento atual sem tentar encaixar o paciente em conceitos engessados de cem anos atrás. Ser psicanalista exige profundidade para nos tirar do raso, dos dogmas e das certezas.

O psicanalista dá conselhos ou tem respostas prontas?

​Afinal, um analista que tem certeza sobre algo e guia seus pacientes como se fossem discípulos, é tudo, menos psicanalista. Psicanálise é outra coisa.

​Um psicanalista questiona tudo, inclusive as suas próprias certezas. Ele trabalha sabendo que não sabe tudo. Como é um caminho que está sempre evoluindo, outra parte essencial do percurso são os pares. Nós nos organizamos com os nossos em busca de evolução, seja em grupos de estudos, leitura ou discussão de casos. Seminários, congressos e rodas de conversa fazem parte do que forma um bom analista. Participamos de sociedades e instituições que mostram de forma ética para a sociedade que temos capacidade de atuar, depois de passar pelas etapas iniciais da prática, enquanto mantemos o tripé: análise pessoal, supervisão e estudo teórico contínuo.

Existe faculdade ou graduação em Psicanálise?

​Não existe uma graduação de Psicanálise. Se você avaliar com cuidado o que descrevi, vai perceber que uma graduação seria muito pouco. Ela não é capaz de capacitar um profissional para atuar no nosso campo.

Quais são as principais abordagens e teóricos na clínica psicanalítica?

Uma caneta-tinteiro clássica repousando sobre uma página em branco, representando a fala livre do paciente e a escuta clínica única.

​As abordagens dos analistas

​Existem campos diversos dentro da psicanálise e cada um deles se encaixa melhor às necessidades de cada paciente.

​Estes são alguns dos teóricos mais conhecidos pelo público, então vamos ver a diferença na clínica de cada profissional que se orienta por eles:

Freud é o criador da psicanálise e a base teorica de todos. O foco do trabalho dos analista freudianos está em investigar o inconsciente por meio da fala livre do paciente, na análise dos sonhos, nos atos falhos e na forma como a pessoa lida com seus desejos e repressões.

Lacan propõe um retorno aos textos de Freud, mas ele defende que o inconsciente funciona por meio da linguagem ou seja um inconsciente que é diferente do freudiano. A clínica se caracteriza por análises e intervenções diretas na fala do paciente, sessões com tempo flexível, focando na lógica do inconsciente.

Winnicott leva em consideração o desenvolvimento emocional desde os primeiros anos de vida e ressalta a importância do ambiente e das relações. A clínica winnicottiana busca construir um ambiente seguro onde o paciente consiga expressar seu lado autêntico e desenvolver a criatividade para lidar com a vida.

Klein: Dedicou-se à análise com crianças e estudou o mundo interno dos bebês, focando nas fantasias inconscientes primitivas e nos mecanismos de defesa contra a ansiedade. Sua clínica é encantadoramente complexa, assim como os casos aos quais se dedicou durante seu percurso, casos difíceis.

​Existem diversos outros teóricos importantes e da mesma forma fascinantes, como Ferenczi e Bion, por exemplo.

​Nota importante: Carl Jung não é psicanalista(a prática dele é a Psicologia Analítica, que é outra linha de trabalho).

O analista foca na vontade de curar ou no desejo do paciente?

​Gosto de olhar para a psicanálise de forma transmatricial, então a minha clínica é particularmente diferente de certas descrições. Ela é feita com partes de tudo o que eu sou, porque além de questionadora, eu sou única(assim como você). Mas este texto não é sobre mim, é mais para levar conhecimento a quem tem dúvidas e quer fazer análise, e também para quem quer ser um bom analista.

​Ser um bom analista não significa necessariamente ser bom para os outros, ser um bom conselheiro, curar ou ajudar as pessoas. Se você deseja isso mais do que qualquer coisa, esse trabalho fala mais de você do que do desejo do seu paciente. Sim, eu quero te provocar a repensar suas certezas.

​A análise é sobre os desejos dos pacientes, não sobre os seus. Nunca se esqueça disso. É isso o que difere quem se diz psicanalista de quem realmente é psicanalista.

O que avaliar no primeiro contato para escolher o psicanalista ideal?

Duas poltronas confortáveis frente a frente em um consultório bem iluminado, simbolizando o acolhimento, a transferência inicial e o encontro entre paciente e analista.

​Afinal, o que levar em consideração na hora de escolher?

​Depois de entender a base ética e teórica, a escolha final passa por algo que acontece no encontro. Quando você entra em contato com um analista pela primeira vez, existe uma transferência inicial, aquela primeira impressão, o modo como a pessoa te escuta, a resposta que ela te dá e o conforto que você sente nesse primeiro aperto de mão ou troca de mensagens. Esse primeiro impacto conta muito. Você precisa avaliar se a forma de trabalho daquele profissional faz sentido para as suas necessidades atuais.

​É fundamental ter em mente que não existe nenhum psicanalista igual a outro. Mesmo que dois analistas tenham estudado os mesmos livros e frequentado as mesmas instituições, o manejo técnico e o estilo de cada consultório serão completamente diferentes. Não existe receita de bolo.

​Cada análise é estritamente única, simplesmente porque cada paciente é único. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para você, e está tudo bem. Escolher um analista é encontrar alguém com quem você sinta que pode sustentar o trabalho de falar sobre si com franqueza. Se houver o respeito pelo tripé da formação e uma conexão ética e confortável nesse primeiro contato, você estará no caminho certo para começar.

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Daiane Romano Psi

Escrito por Daiane Romano Psi

Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.

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