O Nascimento da Mãe e o Conceito da "Mãe Suficientemente Boa"
Nasce um filho, nasce uma mãe! Mas o que vem além dessa movimentação dentro da psique de uma mulher, mesmo sendo algo instintivo, onde sem pensar duas vezes a maioria das mulheres já consegue sentir internamente o que deve ser feito no exato instante em que concebe um filho, envolvendo uma renúncia do seu próprio eu, ser mãe vai além.
Dá-se início a uma construção psíquica e social, início a uma ambivalência, onde a criação de um espaço para o filho se torna prioridade no desejo da mulher. A maternidade vai trazer pra essa mulher implicações das quais ela sem perceber irá reviver a sua própria infância através de atos, cobranças e comportamentos.
No olhar psicanalítico Donald Winnicott destaca a importância de uma "mãe suficientemente boa", que vai falhar mais ao mesmo tempo se humanizar diante da realidade que a contorna, fala de uma mãe que não vai ser perfeita que precisa mesmo diante do desejo expor suas limitações.
Os Desafios Emocionais e a Angústia do Novo
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A maternidade vai demandar dessa mãe sentimentos e atitudes de adoção e entrega ao novo, a partir do momento em que o bebê chega nessa nova família o medo toma conta.
O sentimento de incapacidade, da falta do saber se apropria dessa mulher, por não conhecer realmente o que fazer, afinal de contas ser mãe não vem com manual de instruções, esse momento chega a ser tão enigmático a ponto de ficar totalmente perdida diante dessa nova fase que acaba de se iniciar.
Mas chega um ponto onde esse serzinho se torna objeto de projeções, desejos e de amor. Vale salientar que esse momento também é um das quais toda a família precisa ficar atenta para que esse processo de transição não quebre emocionalmente essa mãe.
É um ponto onde exatamente muitas mulheres passam por sérios problemas de desequilíbrio emocional devido as alterações hormonais, a ocitocina um neurotransmissor presente após o nascimento de um filho, mesmo que favorável a essa adaptação pode ser insuficiente levando a uma depressão pós-parto.
As Raízes e Gatilhos da Depressão Pós-Parto
A depressão pós parto vem de uma série de acontecimentos traumáticos ao longo da vida, onde foram experenciadas dificuldades dentro do ambiente familiar primário que influenciaram diretamente na construção psíquica dessa mãe atravessando seus pensamentos e emoções de forma inconsciente.
Diversas dificuldades, lembranças sobre a sua própria criação, que no momento em que ela se torna mãe se ativam como gatilhos mentais, trazendo uma imagem vívida de sua impotência de sua incapacidade de ser diferente ou até mesmo melhor, levando ela a se sentir mal diante da sua realidade, o campo da fantasia se faz dono do saber, enfraquecendo quem ela é hoje.
São momentos em que se faz necessário um cuidado muito minucioso, com acompanhamento profissional, farmacológico e terapias para ajudar essa mulher a se reestabelecer e assim consecutivamente se preparar para essa nova fase de sua vida. Com ajuda essa mãe floresce e se reestabelece num todo.
A Verdadeira Função Materna: O Equilíbrio Entre Acolher e Frustrar
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Mais com tanta informação vindo de todos os lados cria-se um sentimento de que a função materna entra em um dos patamares mais altos onde o acolhimento e reconhecimento desse filho atinja padrões muitas vezes inalcançáveis, transformando o bebê em um sujeito constituído no campo do desejo, moldado da maneira onde não se permita falhas
Muitas mães, acompanhadas por falhas ao longo de sua própria constituição não querem que o filho passe pelo que ela passou, o excesso desse zelo ultrapassa as barreiras de uma boa castração, o processo de desenvolvimento deste novo ser já se inicia cheio de carências e lacunas, seja por comparação, julgamentos, culpa, simplesmente por essa mãe não permitir o sofrimento como se fosse incapaz de suportar.
Mas afinal de contas o que seria essa tal função materna e como ter a sensação de que realmente está sendo feita de maneira saudável para ambos. A função materna vai além do desejo, ela mantém o equilíbrio entre o dar, o ensinar, o dizer não, e principalmente permitir que esse filho perceba e sinta que nem sempre tudo acontecerá do jeito dele, ao mesmo tempo acolher, amar e cuidar de maneira a se tornar suportável o processo todo do ser vivo.
A falha de muitas mulheres ao se tornar mãe é querer realizar com esse filho aquilo que faltou um dia a ela, não a toa a projeção do não deixar chorar, sentir dor, não limitar transforma situações difíceis em algo inalcançável.
Ensinar que muitas vezes vai haver quedas, mas que ele vai aprender a se levantar e a suportar tudo, porque ela sempre estará ali para apoiar é fundamental para um bom equilíbrio emocional, porém, na maioria das vezes para essa mãe aprender a dizer não é muito mais difícil do que para esse filho.
Por essas condições atuais estamos lidando com inúmeras crianças, adolescentes incapazes de realizar tarefas sozinhos, incapazes de pensar, agir, se responsabilizar e principalmente, crianças incapazes de se socializar e criar vínculos realmente saudáveis para um bom desenvolvimento humano.
O Outro Lado da Moeda: Mães Narcisistas e a Dificuldade do Vínculo
Ao mesmo tempo que existem mães suficientemente boas, vemos aquelas que realmente não fazem nada, que abriram mão desse cuidado todo, que até reconhecem o amor materno, mas que na família convivem com certa hostilidade, inveja e sentimentos conflitantes diante desse filho.
Essa ambivalência se faz presente em muitos casos, onde as mães com traços narcísicos se veem como figuras de extrema importância dentro desse contexto família, deixando de lado a empatia e o cuidado, transformando o lar em um ambiente tóxico e difícil de suportar.
Por esta razão crescem neste meio o sentimento e a necessidade de separação, tanto para o filho quanto para a mãe. O que uns postergam ao máximo outros veem uma necessidade extrema.
A Síndrome do Ninho Vazio: Quando a Mulher Precisa se Reencontrar
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Em muitos casos a mulher não se prepara para esta próxima fase da vida onde os filhos crescem, se tornam independentes e capazes por si só, este é um momento em que ela se vê entre um confronto entre expectativas e desejos.
Perdida em sua própria vida, em seus próprios pensamentos, por não saber mais do que realmente ela é capaz, este é um ponto onde mais uma vez ela se vê sozinha. Essas são fases de uma vida de dedicação extrema, de renunciar a sua essência como mulher, de se perder em um único papel o de ser mãe.
Por isso a importância do equilíbrio emocional, de se manter uma psique onde ela se permita ser além de mãe, ser mulher, permitir ter uma autoestima elevada, se cuidar e permitir ser cuidada. Para assim poder manter todos esses papéis em sua vida de forma suficiente e feliz e por fim se questionar sempre sobre o que a faz realmente feliz, se reconectar consigo, buscar o autoconhecimento é o que fará ela realmente ser quem sempre foi.
O Fim do Mito da Mãe Perfeita e Inquebrável
Por fim, a gestação transforma o psiquismo da mulher, exige dela uma elaboração de espaço mental e físico para receber esse filho, pois ela sabe que a partir desse momento tudo será diferente daquilo que ela sempre teve como propósito de vida, é este o momento que se faz necessário se olhar e se cuidar.
Toda mulher encara em sua vida muitos papéis, além de mulher, ser esposa, mãe, profissional, ser ela mesma, e de certa forma a vida lhe proporciona inúmeras dificuldades ao executar todos eles, porque como ser humano pendemos para aquele lado onde mais nos identificamos e por certa razão parece também ser fácil.
Ser mulher requer um jogo de cintura, um manejo da vida que só ela é capaz de fazer, driblar todas essas situações, estar apta a se transfigurar diante de tantos papéis requer um equilíbrio emocional muito grande o que muitas vezes é difícil, por isso que diferente de uma visão idealizada do ser só uma boa mãe, a psicanálise foca em uma mãe real, que é capaz de sentir culpa diante de falhas, sentir a exaustão diante dos excessos, desconstruindo o mito de uma mãe santa e inquebrável.
Escrito por Lucelia Perez
Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.