30 de junho de 20265 min de leitura

Ler não é terapia: Como a literatura nos ajuda a compreender e dar nome às nossas emoções

Daiane Romano

Daiane Romano

AUTOR
PsicanalistaReg: ABPC
Ler não é terapia: Como a literatura nos ajuda a compreender e dar nome às nossas emoções

"Nem todo encontro foi feito para durar, mas alguns duram em quem a gente se torna... Às vezes, amar é ficar. Às vezes, amar é ir."

— Pedro Salomão, Eu tenho sérios poemas mentais

​Escuto com frequência pessoas dizendo: "Ler é minha terapia", na maioria das vezes, essa afirmação nasce de experiências muito concretas: um romance que chega até nós durante um período difícil, um poema que parece traduzir exatamente o que sentimos ou um texto que amplia a forma como compreendemos a nós mesmos.

​Mas é importante fazer uma distinção.

​Quando lemos algo como:

"Quem nunca teve

que se afastar

pra não se confundir com o outro

e paradoxalmente se aproximou ainda mais

não sabe o que é

intensidade"

— Ana Suy, As cabanas que o amor faz em nós

​Mesmo que isso nos cause uma identificação profunda, daquelas que chegam a produzir certo alívio por encontrarmos palavras para uma angústia que parecia sem forma, ainda assim, ler não é terapia.

​Por que ler não é terapia?

Fotografia conceitual de um livro aberto com páginas em branco ao lado de uma poltrona clássica vazia, simbolizando a diferença entre a leitura solitária e o espaço de escuta do processo analítico

​A literatura não substitui a psicoterapia, a psicanálise ou qualquer outro processo clínico, um livro não escuta a nossa história, não interpreta nossos conflitos, não devolve perguntas nem acompanha as transformações que acontecem ao longo do tempo. O processo analítico, assim como outras modalidades de psicoterapia, é construído na relação com o outro, em um espaço de escuta que favorece a elaboração da experiência humana.

​Reconhecer essa diferença, porém, não diminui a importância da literatura, pelo contrário, ela possui um papel insubstituível, profundamente humano e muitas vezes transformador.

​A poesia como tradução dos afetos

​Sempre me aproximei da poesia contemporânea porque encontro nela algo difícil de explicar, seus autores parecem captar detalhes da experiência humana que escapam às descrições objetivas, escrevem sobre ausência, amor, medo, luto, esperança, culpa e desejo sem reduzir esses afetos a definições prontas, em poucas linhas, conseguem transformar sensações dispersas em imagens que permanecem conosco muito depois do fim da leitura.

​Em Eu sempre morro, Kaio Bruno Dias escreve:

II

a gente sentia que estava acabando

o fim era inevitável

mas continuávamos esperançosos

mentíamos gentilmente um para o outro

dizíamos que tudo ia ficar bem

no fundo a gente sabia que não.

​Kaio nos aproxima de dores difíceis de colocar em palavras, ao nos identificarmos com elas, pode surgir a possibilidade de começar a lhes atribuir algum sentido.

​Dar nome à angústia: O poder da simbolização

Letras tipográficas de metal que saem de uma pilha caótica e se organizam em uma linha reta perfeita, representando como o processo de simbolização e a poesia ajudam a nomear e organizar a angústia mental.

​Talvez seja justamente por isso que determinados textos nos emocionem tanto. Não porque revelem algo completamente novo, mas porque conseguem colocar em palavras aquilo que ainda não sabíamos dizer. Há momentos em que carregamos um sofrimento profundo, uma angústia ou uma alegria difíceis de explicar, sentimos, mas não conseguimos narrar. Então encontramos um poema, uma página ou um personagem que parece emprestar linguagem àquilo que permanecia ali, dentro de nós, e doía tanto.

​Quando isso acontece, a experiência não desaparece, mas muda de lugar, o que antes era apenas vivido também pode começar a ser pensado. Dar nome ao que sentimos não elimina a dor, mas modifica nossa relação com ela, quando uma experiência encontra palavras, ela deixa de existir apenas como intensidade, passa também a poder ser pensada, lembrada e compartilhada. Teoricamente, esse movimento faz parte do processo de simbolização.

​Essa talvez seja uma das maiores contribuições da literatura, ela amplia nosso repertório simbólico, oferece metáforas, imagens e palavras que nos ajudam a organizar experiências internas que até então pareciam desconexas, não se trata de encontrar respostas prontas, mas de descobrir novas formas de formular perguntas.

​A literatura rompe o isolamento do sofrimento

Várias chaves antigas e diferentes conectadas por um único e delicado fio de ouro sobre uma pedra cinza, simbolizando como a literatura aproxima as experiências humanas e rompe o isolamento do sofrimento.

​Sempre termino um bom livro de poesia com a sensação de que compreendi um pouco mais sobre a condição humana e um pouco menos sobre a ilusão de controlar a vida. Os poemas raramente oferecem soluções, em vez disso, oferecem companhia, lembram que certas dores, dúvidas e contradições fazem parte da experiência de existir e que outros seres humanos também tentaram compreendê-las, cada um à sua maneira.

​Existe algo profundamente reconfortante nessa constatação, muitas vezes, o sofrimento se intensifica quando acreditamos que ele nos torna únicos ou incompreensíveis. A literatura rompe esse isolamento ao revelar que aquilo que sentimos também atravessa outras vidas, outras épocas e outras histórias, ela nos aproxima da experiência humana compartilhada, se outras pessoas também atravessaram dores semelhantes, talvez exista alguém capaz de compreender a nossa e de acolhê-la. Aos poucos, podemos voltar a acreditar que não precisamos carregar tudo sozinhos.

​A verdadeira essência da leitura e a elaboração psíquica

​Nem toda experiência encontra imediatamente uma representação, existem vivências que permanecem sem palavras durante muito tempo e quando isso acontece elas continuam produzindo efeitos, mesmo que não consigamos descrevê-las com clareza. A possibilidade de simbolizar uma experiência, isto é, de encontrar palavras, imagens e sentidos para aquilo que foi vivido, constitui um passo importante na elaboração psíquica. A literatura não realiza esse trabalho sozinha, mas pode favorecer esse movimento ao ampliar as possibilidades de expressão e de pensamento.

​Por isso, não considero que os livros curem as pessoas, acredito, porém, que bons livros podem criar condições para que nos aproximemos de nós mesmos com mais delicadeza e curiosidade, eles podem despertar perguntas, ampliar perspectivas e oferecer palavras que mais tarde talvez encontrem lugar em uma conversa, em um processo analítico ou em uma reflexão silenciosa.

​Talvez essa seja a verdadeira essência da leitura, ela não tem a pretensão de substituir a terapia, mas amplia nossa capacidade de sentir, pensar e narrar a própria existência. Existem dores que não desaparecem quando recebem um nome, mas podem se tornar menos solitárias quando encontram palavras e passam a poder ser compartilhadas. E, às vezes, é justamente um poema que nos oferece as primeiras palavras para iniciar essa narrativa.

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Daiane Romano

Daiane Romano

AUTOR
PsicanalistaReg: ABPC Palhoça - SC

Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.