Há algum tempo venho percebendo uma pergunta que se repete com frequência, ela aparece de maneiras diferentes, mas quase sempre nasce do mesmo lugar.
Às vezes surge ao final de uma sessão quando depois de narrar uma história longa e difícil, o sujeito interrompe o próprio relato para perguntar se a pessoa com quem conviveu poderia ser narcisista. Em outras ocasiões, chega pelas redes sociais, em mensagens de pessoas que tentam compreender um relacionamento que terminou deixando mais dúvidas do que respostas. Também aparece nas conversas cotidianas e nos inúmeros vídeos que prometem ensinar a reconhecer um narcisista em poucos minutos. Mudam as histórias, mudam os cenários, mas a pergunta permanece praticamente a mesma.
Com o tempo, percebi que passei a me interessar menos pela resposta e mais pelo que existe por trás dessa insistência.
A Popularização da Saúde Mental e a Necessidade de Classificar
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Não me parece que a principal mudança dos últimos anos tenha sido um aumento do número de pessoas narcisistas. O que mudou foi a forma como passamos a compreender determinadas experiências, a linguagem da saúde mental saiu dos consultórios, ganhou espaço nas redes sociais, nos livros, nos podcasts e nas conversas do dia a dia. Isso trouxe contribuições importantes, muitas pessoas encontraram palavras para experiências que, durante muito tempo, permaneceram sem nome e nomear aquilo que vivemos pode ser o primeiro passo para organizar uma história marcada por culpa, confusão ou sofrimento.
Ao mesmo tempo, essa popularização produziu um efeito curioso, conceitos que nasceram para ampliar nossa capacidade de compreender a vida psíquica passaram, muitas vezes, a funcionar como respostas rápidas para experiências extremamente complexas. Aos poucos, deixamos de perguntar o que aconteceu naquela relação para perguntar apenas qual era o diagnóstico da outra pessoa, a necessidade de compreender foi sendo substituída pela necessidade de classificar.
Vivemos em uma cultura que exige respostas rápidas, posições definitivas e personagens facilmente identificáveis. Precisamos saber quem é a vítima, quem é o agressor, quem possui razão, quem merece ser afastado, a experiência humana, entretanto, raramente organiza-se com essa nitidez.
Existem relações profundamente violentas.
Isso não está em discussão.
Mas as razões pelas quais essas violências acontecem nem sempre pertencem à mesma ordem.
O Verdadeiro Conceito de Narcisismo na Construção da Identidade
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É justamente nesse ponto que o conceito de narcisismo merece um pouco mais de cuidado.
Na linguagem cotidiana, a palavra costuma dizer sobre pessoas egoístas, manipuladoras, frias ou incapazes de reconhecer o sofrimento alheio e embora esses comportamentos possam aparecer em algumas organizações da personalidade, reduzir o narcisismo a uma lista de características significa empobrecer um conceito muito mais amplo.
A verdade é que o narcisismo faz parte da constituição psíquica de todos nós, ele é um momento necessário do desenvolvimento e participa da construção da identidade, muito antes de ser associado a um transtorno de personalidade, o conceito de narcisismo procurava compreender algo muito mais fundamental: de onde nasce a experiência de sermos nós mesmos? Como alguém começa a sentir que possui uma existência própria, suficientemente estável para investir na vida, construir relações e reconhecer o outro como alguém diferente de si?
O narcisismo como etapa do desenvolvimento
Essa não é uma construção que aconteça em um único momento, tampouco depende apenas do afeto, ela se desenvolve aos poucos, em uma sucessão de pequenos encontros, de ausências suportáveis, de frustrações que podem ser elaboradas e de experiências suficientemente boas para que a realidade deixe de ser apenas uma ameaça e passe a tornar-se um lugar onde vale a pena existir.
É nesse contexto que o narcisismo começa a adquirir um significado muito diferente daquele que costuma aparecer nas redes sociais.
Existe um tempo da vida em que voltar-se para si não representa egoísmo, arrogância ou vaidade, representa uma necessidade do próprio desenvolvimento, antes de amar alguém, é preciso constituir um lugar interno a partir do qual esse amor possa existir. Antes de reconhecer a alteridade, é necessário descobrir que existe um eu capaz de encontrar esse outro.
Isso é bastante diferente de uma organização narcísica de personalidade, que diz respeito a uma forma persistente de funcionamento psíquico e só pode ser compreendida a partir da história singular de cada sujeito.
Na minha opinião, reduzir o narcisismo à ideia de excesso de amor-próprio, talvez seja o que produz atualmente tantos equívocos. O conceito nasceu para compreender a construção da subjetividade, não para descrever pessoas difíceis, fala muito mais sobre a delicada tarefa de tornar-se alguém do que sobre a caricatura que, frequentemente, fazemos daqueles que chamamos de narcisistas.
Quando olhamos para essa origem, uma mudança importante acontece, o narcisismo deixa de aparecer como um problema que pertence apenas a algumas pessoas e passa a ser reconhecido como uma dimensão presente na história de todos nós. Cada sujeito percorreu esse caminho de maneira singular, cada história encontrou condições diferentes para que esse sentimento de existir pudesse amadurecer, algumas encontraram recursos suficientes para construir uma relação relativamente estável consigo mesmas, outras precisaram organizar formas muito mais frágeis de sustentar a própria identidade.
Dizer isso não significa minimizar a dor de quem sofreu.
Pelo contrário.
É apenas uma forma de explicar que na clínica não trabalhamos com respostas rápidas, dois indivíduos podem apresentar comportamentos semelhantes e, ainda assim, serem movidos por conflitos profundamente diferentes.
Toda Pessoa Cruel é Narcísica?
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Essa distinção é importante porque impede um equívoco que se tornou frequente: imaginar que toda pessoa cruel seja, necessariamente, narcisista.
Porque compreender alguém não é o mesmo que encontrar a palavra mais adequada para descrevê-lo.
Penso que exista uma diferença importante entre: reconhecer padrões e reduzir pessoas aos padrões que conseguimos reconhecer. A primeira atitude amplia nossa capacidade de pensar, a segunda costuma interromper o pensamento justamente quando ele começa a tornar-se mais necessário.
É nesse ponto que uma pergunta me parece inevitável.
Toda pessoa cruel é narcísica?
Talvez a resposta mais honesta seja também a menos satisfatória.
Não.
E isso não torna a crueldade menos grave.
Ao contrário.
O impacto real da violência psicológica
Imagine alguém que passou anos convivendo com humilhações constantes, desqualificações, controle excessivo, medo, chantagens emocionais ou qualquer outra forma de violência psicológica. O impacto dessa experiência não depende da estrutura de personalidade de quem a produziu. Ele depende, sobretudo, daquilo que foi vivido.
Se amanhã descobríssemos que aquela pessoa não preenchia os critérios para uma organização narcísica da personalidade, a dor desapareceria?
As marcas deixariam de existir?
A confusão experimentada durante anos perderia sua importância?
Evidentemente não.
A experiência clínica mostra que relações profundamente destrutivas podem surgir de histórias marcadas por traumas, dificuldades importantes na constituição do sujeito, formas rígidas de funcionamento psíquico ou de outras organizações que nada tem a ver com o narcisismo. Reduzir toda violência emocional a um único diagnóstico simplifica aquilo que, por natureza, é complexo.
Existe uma expectativa silenciosa de que o diagnóstico seja capaz de validar retrospectivamente uma experiência, como se descobrir que a outra pessoa realmente era narcisista organizasse, finalmente, tudo aquilo que parecia incompreensível. Mas o sofrimento nunca dependeu dessa confirmação.
Nenhum conceito consegue substituir a experiência viva de uma relação.
E quem sabe seja uma boa notícia descobrir isso.
Porque significa que nossa história não depende da confirmação de um rótulo para ser levada a sério.
Ela depende apenas de uma condição muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil.
Ela precisa ser escutada.
Para Além do Diagnóstico: A Construção da Própria Narrativa
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Talvez seja justamente por isso que a pergunta inicial mereça ser ampliada.
Em vez de concentrarmos toda a atenção em descobrir quem era a pessoa que nos machucou, pode ser mais interessante perguntar por que sentimos tanta necessidade de transformar experiências complexas em diagnósticos. O que buscamos quando insistimos tanto em encontrar um nome? Uma explicação? Uma confirmação? Ou uma maneira de devolver sentido a uma história que nos deixou profundamente desorganizados?
Não há nada de errado em procurar compreender, dar nome ao sofrimento pode ser uma etapa importante da elaboração.
O problema começa quando acreditamos que o nome substitui a história, os conceitos clínicos existem para ampliar nossa capacidade de pensar, não para interrompê-la. Eles ajudam a clarear aspectos importantes da experiência humana, mas jamais conseguem descrever sua complexidade como um todo. Nenhum diagnóstico conta uma vida inteira, nenhuma categoria clínica consegue abarcar tudo aquilo que duas pessoas viveram ao longo de uma relação.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja se a pessoa que cruzou o nosso caminho era ou não narcisista. A questão que permanece é outra: o que essa experiência fez conosco? O que ela modificou na maneira como passamos a confiar, amar, estabelecer vínculos ou olhar para nós mesmos?
Responder a essas perguntas exige um caminho muito mais longo do que encontrar um diagnóstico. Exige transformar a experiência em narrativa, reconhecer a própria dor sem depender de uma classificação para legitimá-la e aceitar que algumas histórias permanecem maiores do que qualquer conceito que tentemos utilizar para descrevê-las.
No fundo, não passamos a vida inteira tentando descobrir apenas quem eram as pessoas que cruzaram nosso caminho.
Também passamos a vida tentando compreender quem nos tornamos depois de cada encontro.
E provavelmente essa seja uma pergunta que nunca termine de ser respondida.
Daiane Romano
Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.