Estamos diante de certas mudanças no âmbito corporativo que dizem respeito à importância do cuidado com a saúde mental. Com novas normas institucionais, diversas dúvidas surgem e acredito que alguns questionamentos se tornam necessários, por mais delicado que este tema seja.
Em um primeiro olhar, a imagem passada pelas organizações diz sobre uma preocupação com o sofrimento psíquico, mas sabemos que a lógica empresarial busca a funcionalidade e só aponta um problema quando este lhe causa prejuízo. Até que ponto ultrapassar os limites profissionais e adentrar o âmbito pessoal do sujeito, utilizando métricas de desempenho associadas à sua dor psíquica, traz realmente benefícios?
Profissionais de diversas áreas, inclusive psicanalistas, recebem questionamentos sobre o trabalho executado nesta esfera. É possível atuar em situações deste gênero? Acredito que sim, mas antes, precisamos ponderar o impacto do lugar que ocupamos.
NR1 como ferramenta de controle corporativo
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A subjetividade transformada em dado estatístico
Quando a subjetividade é transformada em dado estatístico, o acolhimento corre o risco de se tornar vigilância. Softwares que monitoram níveis de estresse e algoritmos que tentam prever o esgotamento operam sob a lógica da manutenção técnica do trabalhador. O problema central dessa abordagem é que ela ignora o tempo de elaboração de cada indivíduo. Ao detectar um desconforto antes mesmo que o sujeito o nomeie, a instituição retira dele possibilidade de fazer algo sobre o próprio sofrimento.
Nesse cenário, o colaborador pode desenvolver uma adaptação defensiva onde performa um estado de equilíbrio para atender às expectativas do setor de gestão. O bem-estar passa a ser uma obrigação contratual, e a tristeza ou mal-estar, um indicador de ineficiência a ser corrigido rapidamente.
O limite da atuação clínica na instituição
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A atuação do psicanalista nesse contexto se torna complexa, pois exige o rigor de não se tornar um braço da gestão de pessoas. Enquanto o objetivo da empresa é a retomada da produtividade, o foco do clínico é a sustentação de um espaço onde o sujeito não precise ser apenas funcional.
Um ambiente de trabalho saudável não é aquele que controla o humor dos funcionários em tempo integral, mas aquele que oferece suporte sem exigir transparência total da vida privada. O verdadeiro suporte psíquico no trabalho depende da compreensão da dor do outro, do apoio para que este busque ajuda quando julgar necessário, e não de tentar corrigir falhas no ser humano.
O impacto social e a responsabilidade ética na gestão
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Ocupar esse lugar de mediação implica uma responsabilidade ética. Ao validar o monitoramento constante como cuidado, um profissional pode estar colaborando com a quebra da fronteira entre o público e o privado, gerando assim mais angústia, insegurança e ansiedade no sujeito, ao invés de realizar o oposto. É preciso garantir que o suporte institucional não se torne uma forma sofisticada de adentrar a intimidade e controlar o ser.
O benefício real só acontece quando a empresa respeita o direito ao silêncio. E entende que a saúde mental não é uma meta a ser batida, mas uma condição humana que envolve, invariavelmente, momentos de improdutividade. Dor não cabe em gráficos de desempenho.
Escrito por Daiane Romano Psi
Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.