9 de junho de 20269 min de leitura

O amor: Será que é sobre você ou sobre o outro?

Lucelia Perez

Lucelia Perez

AUTOR

Profissional Verificado

O amor: Será que é sobre você ou sobre o outro?

Para Freud, a gente não ama o outro somente pelo que ele é, amamos o que essa pessoa desperta na gente, impulsos, desejos, vontades, repressão.... o amor na psicanálise segundo Freud vai além do princípio do prazer, ele fala sobre nosso desenvolvimento psicossexual, a forma como vemos o outro e como buscamos a cada evolução nossa, o que mais falamos é sobre como Freud sexualizou a psicanálise com sua teoria, porém cada fase de desenvolvimento nos faz ser o que somos, diante de uma estruturação parental, onde reprimimos o que realmente desejamos, ou até mesmo soltamos demais. Tudo vai depender dessa constituição. O amor faz parte de nós, precisamos dele para nos completar.

A busca pela falta e as raízes no narcisismo

​O amor nos leva ao encontro daquilo que falta. Projetamos no outro tudo aquilo que sentimos ser necessário, estamos o tempo todo idealizando o que seria ideal para nós. Na maioria das vezes não vemos a pessoa em sua completude, porém, existe uma versão dela que nos preenche. Por isso o amor tem fortes raízes no narcisismo, simplesmente por nos apaixonarmos por alguém que representa tudo o que já fomos, o que somos ou o que gostaríamos de ser. Essa pessoa será aquela que nos fará alcança o prazer por nos colocar exatamente onde gostaríamos de estar.

O encontro de duas faltas

Duas peças de cristal translúcido se aproximando para se completarem, simbolizando a teoria psicanalítica do encontro de duas faltas e o desejo inconsciente no amor

​Amar é dar o que não se tem a alguém que não quer, ou seja, oferecemos ao outro aquilo que não temos, esperando que ele nos devolva algo que na maioria das vezes, também não terá para nos dar. Lacan diz que amor é um encontro de duas faltas que se reconhecem, por isso pode ser que realmente se completem ou pode ser que o relacionamento seja ruim, ou tóxico.

​Por essa razão, olhar para esse outro com um olhar narcísico, onde buscamos partes de nós mesmos que conscientemente não reconhecemos, mas que no fundo gostaríamos de ser, pode trazer dor. Simplesmente porque mexe diretamente com nosso ego, com nossas expectativas infantis de ser cuidado e de ser escolhido.

Os objetos de amor primários e o vazio estrutural

​Além disso, todas as escolhas amorosas na vida adulta são pautadas de forma inconsciente pelo reencontro de figuras que cuidaram de nós na infância o que na psicanálise chamamos de (os "objetos de amor" primários, ou seja, figuras parentais. Além de idealizarmos o amor em nossas vidas, em seu maior ápice supervalorizamos o outro, simplesmente por ele ser capaz de preencher nossas faltas. Isso significa que o amor nasce de uma falta estrutural, inerente ao ser humano. Não damos algo palpável, material; ao falar de amor, falamos de uma doação simbólica do nosso próprio vazio.

Amor Objetal, Amor Narcísico e Eros

Uma rosa vermelha vibrante refletida em uma superfície escura com uma folha caindo, representando as forças vitais de Eros e Thanatos e a complexidade do amor na psicanálise

​Quando falamos neste tema, ele vai muito além desse amor romântico e segundo Freud, pode apresentar-se sob diversas formas em nossas vidas, como por exemplo: amor objetal, amor narcísico e o Eros.

​O amor objetal é aquele que direcionamos aos mais variados objetos, se referindo ao amor sensual, diferente do amor narcísico onde colocamos toda nossa energia em nós mesmos, Freud sempre dizia que há um grande investimento da libido em nosso próprio “eu”, tratando-se de um narcisismo de origem infantil, acalentado pelo resto de nossas vidas. Quando se fala de Eros ele representa as mais diversas ligações entre sujeitos, podendo ser de amizade, ternura, laços de família ou trabalho e até mesmo o amor sensual, de conquista do outro.

​Falar de amor dentro da mitologia grega nos posiciona a saber que Eros o deus do amor, do desejo e da fertilidade, representa essa força vital que nos move, em oposição a Thanatos, que por sua vez tem força suficiente para destruir todos os laços construídos por Eros, já que representa a personificação da morte pacífica, guiando as almas ao submundo, aquela que nos coloca diante da desistência de tudo aquilo que um dia foi conquistado. A doce e sutil arte do amar entre idas e vidas, escrita há muitos anos, por muitos.

Mais por que nos apaixonamos?

​Esta é uma das muitas perguntas dentro de um processo analítico. Ao se falar de relacionamentos, falar de amor, dentro do setting psicanalítico são muitos os questionamentos sobre escolhas amorosas, e existem muitas dúvidas. As mais comuns são: o porquê me apaixono por pessoas erradas? Como pude me apaixonar por alguém assim? Por que sempre me dou mal nas minhas relações amorosas? Por que não consigo me separar dessa pessoa tão tóxica? E pior, toda vez descubro que sou pior que um alce, de tantos galhos na minha testa....

​Sim é mais comum do que se imagina se envolver com pessoas que não são as ideais. O fato é que mesmo há mais de 100 anos, Freud já tinha experenciado todas essas questões em seus processos analítico, lhe rendendo a escrita de um dos mais famosos textos sobre o narcisismo em 1914, onde explica como se dão nossas escolhas diante aos objetos de amor.

​De forma reduzida Freud diz que nós nos apaixonamos diante de cinco critérios diferentes: por alguém que nos alimenta, por alguém que nos protege, por alguém que é alguma coisa que a gente é, por alguém que é alguma coisa que a gente já foi e por alguém que é alguma coisa que a gente gostaria de ser.

​Nada disso foi intencional, sendo elaborado diante de padrões onde todas as maneiras se encontram mescladas umas às outras diante das escolhas que fazemos. Um objeto de amor pode proporcionar, proteção, nos impulsionar a ser aquilo que gostaríamos de ser um dia, nos oferece carinho, nos acompanha em lugares que gostamos como um bom restaurante, entre outras coisas que nos completa como ser humano.

​A existência do vínculo entre o amor e o inconsciente é muito forte, por isso é impossível o sujeito ter um conhecimento exato do que o motiva a se apaixonar por alguém. Somos sempre surpreendidos quando nos vemos apaixonados por alguém que jamais imaginaríamos.

Buscamos por segurança e proteção

​O fato de querer se sentir seguro e protegido dentro de um relacionamento amoroso, tem suas raízes objetais na infância. Precisamente falando, esse contexto se encontra no amor edipiano, partindo de um pressuposto que o nosso primeiro amor está exatamente ligado às figuras parentais, ou seja, aqueles que cuidaram de nós, oferecendo cuidados básicos e proteção.

​Esse amor que um dia foi sentido pelos pais quando criança, pode, sem percebemos, moldar nossas escolhas amorosas posteriores. Ao longo da vida, será normal o sujeito eleger objetos de amor que, de certa maneira, sejam semelhantes às figuras parentais. Já parou para pensar o quanto é fácil de apaixonar por pessoas que auxiliam diante de desamparos? Ou por pessoas dotadas de autoridade, por que sempre sabe o que precisa ser feito? Ou até mesmo se apaixonar por pessoas que amam incondicionalmente, e se não for assim não serão boas o suficiente, a ponto de não valer a pena pra você?

​Nosso inconsciente sempre vai se manifestar diante nossas escolhas amorosas, de tal forma que não teremos o menor controle sobre elas, ele nos manipula o suficiente a ponto de não percebermos. Não à toa observamos esses padrões em amigos que se relacionam com pessoas que possuem os mesmos defeitos dos pais, e mesmo quando apontamos, muitas vezes não percebem, justamente por serem traços tão comuns. Passam uma vida reclamando de determinadas atitudes e comportamentos dos pais, mas ao se relacionarem desejam tanto ser diferentes, que acabam escolhendo sujeitos com os mesmos traços.

Narcisismo e amor

Um espelho antigo refletindo uma luz dourada e acolhedora, simbolizando o narcisismo no amor, a busca por segurança e o reencontro com figuras de afeto da infância

​Sempre que falamos sobre narcisismo, a maioria de nós vai aos extremos, por carregar uma imagem negativa do que ele possa representar. Porém, o amor possui fortes ligações com esse lado narcísico das pessoas, simplesmente pelas escolhas que são feitas. Ninguém escolhe amar alguém que tenha traços que não gostaria ou que não façam sentido dentro de sua vida, isso estaria muito fora do campo do desejo.

​E sobre amar alguém que nos lembre de quem um dia fomos? Feche os olhos e pense em quem você foi na infância, ou até mesmo na adolescência. Lembre dos seus sonhos, desejos, aspirações que, de certa forma você foi obrigado a deixar de lado, simplesmente para fazer parte de uma crença limitante, seguir regras e ver sua autoestima se perder. Quando menos se espera nos deparamos com alguém que pareça carregar esses traços perdidos, algo que um dia nos completou narcisicamente. Automaticamente nos apaixonamos por essa pessoa como se fosse nossa alma gêmea. O coração acelera, ficamos estupefatos diante da situação e, sem perceber nos entregamos a experiência, justamente por ela nos lembrar daquilo que desejávamos ser um dia. Essas faltas nos colocam em uma posição na qual acreditamos que só será possível ser feliz mediante a uma única condição: relacionar-se com alguém que tenha características semelhantes às nossas.

​Casos assim podem conter traços que marcam o comportamento, defeitos desconhecidos, manias, desejos, ou até mesmo tendencias a vitimismo e manipulação, o que pode levar a relacionamentos difíceis e tóxicos, pois a brigas serão sempre frequentes. Ambos passam uma vida acusando o outro por uma série de coisas que, muitas vezes, nem sequer são reais. Como exemplo podemos falar de desorganização, intolerância a certas situações que podem ser normais para um e não para o outro, ou julgar a mulher por ser atrevida e o homem não perceber que ele também é. O julgamento vai longe, e sem perceber, repetimos os mesmos atos.

​Amar alguém que tenha algo que nós gostaríamos de ter, nos coloca em uma posição de supervalorização do objeto amado. Afinal, essa pessoa conseguiu fazer aquilo que gostaríamos de ter feito e, por algum infortúnio não fizemos. Olhamos para ela e pensamos: “encontrei alguém que tem todas as coisas que um dia sonhei para mim”.

​De fato, esta escolha marca não apensas relações sensuais, mas também outros lugares como religião, política, artes. Um verdadeiro combo para preencher nossas faltas, a ponto de ficarmos cego diante de defeitos, defendemos o que supostamente está errado, não percebemos malandragens ou comportamentos destrutivos, simplesmente porque estamos cegos diante desse amor. Por isso tudo falar de amor é complexo, porque vai depender de como cada um de nós foi constituído como sujeito, de como vamos olhar para fora com um olhar verdadeiro compreendendo que aquilo que nos completa precisa ser diferente do que somos ou do que já fomos. Dar oportunidade ao novo, sentir o que realmente pode acrescentar em nossa vida, sem julgamentos e sem pressão, é olhar para o horizonte acreditando que aquilo que é bom também pode acontecer com você.

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Lucelia Perez

Escrito por Lucelia Perez

Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.

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