Qual o tamanho da satisfação real que uma pessoa espera do mundo exterior, e até que ponto ela irá agir para se tornar independente dele?
E é assim que questiono você sobre todos os seus desejos de vida, uma vez que para que possamos viver bem em uma sociedade extremamente “organizada” se faz necessário deixar de lado todos os seus instintos, porque há um enorme conflito estruturante entre a natureza do ser humano e a cultura que o cerca.
Freud e o Princípio do Prazer na Cultura
Diante de tal organização o que passa a nortear a vida de uma pessoa é passar a racionar sua libido, o princípio do seu prazer! Freud (1930) afirma que tudo isso irá depender realmente da quantidade de satisfação real o sujeito espera do mundo exterior, e o que vai lhe mover a agir em busca de se tornar independente dele, e, de quanta força ele acredita ter, para conseguir modificar tudo de acordo com seus desejos. Dessa forma a tal felicidade plena que se busca incansavelmente nunca seria alcançada, se instalando em sua psique um mal-estar inconsciente a ponto de ser inexplicável.
Constantemente nos submetemos a inúmeras experiências e realizamos práticas diárias em busca de ser felizes, nos apegamos a religião, arte, ao amor, entre muitas outras coisas como também o trabalho.
O Trabalho como Potencial de Felicidade ou Renúncia
Apesar do trabalho não figurar algo deste gênero, por ser decorrente de uma necessidade e pouco apreciado pelas pessoas, em muitos casos ele é escolhido de maneira livre e espontânea, o que o torna um grande potencial de alcance a felicidade, pois vai permitir que haja um direcionamento maior das pulsões presentes nesse sujeito, permitindo assim que elas sejam exploradas de forma satisfatória.
Uma das formas positivas do trabalho na vida do homem é proporcionar a ele notícias sobre a sua realidade ao inseri-lo diante da comunidade, promovendo automaticamente alguns aspectos libidinais, narcísicos, competitivos, agressivos e algumas vezes até eróticos.
Se há tempos o homem foi obrigado a renunciar a suas realizações para viver em prol da sociedade, conforme encontramos na frase freudiana "O ser humano de cultura trocou um tanto da possibilidade de felicidade por um tanto de segurança" (Freud, 2020 [1930], p. 368), que com o passar nos anos com o neoliberalismo e atualmente com o capitalismo, o que se tem praticado é que não precisamos renunciar a mas nada, agora podemos ter e ser tudo o que quisermos.
Com certeza esses são pensamentos muito tentadores, porque, em uma sociedade aonde de um lado tudo pode por outro lado tudo também se vende, se engaja, mas também se adoece.
O Adoecimento Psíquico na Era da Hiperprodutividade
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Quando menos percebemos adoecemos pelo excesso que atualmente é vendido como necessário, padrões extremamente inalcançáveis, o que levam automaticamente o sujeito a se comparar e se perder no meio desse mundo que cobra cada vez mais e mais, e por cobrar cada vez mais o ser humano não percebe que já está em meio a estes milhões de pensamentos aleatórios como se entrassem em um labirinto e não encontrasse a saída.
Essa busca incessante ao “ter e ser” leva muitas vezes o sujeito a um sofrimento psíquico onde se sujeita cada vez mais a realizar tarefas em ambientes de trabalho cada vez mais tensas. Pesquisas mostram a relação entre tensão nervosa e produtividade dentro de empresas onde seus funcionários são submetidos a situações extremas de controles com hierarquias extremamente rígidas e abusivas. Uma vez que você é submetido a um ambiente onde há agressividade demonstrada entre funcionários, automaticamente há a possibilidade de gerar uma autoagressão e mudanças de humor repentinas, por não encontrar uma saída justificável, o que leva ao sentimento de culpa, raiva e incapacidade, consequentemente o sujeito se coloca na obrigação de aumentar o ritmo do trabalho para compensar e automaticamente se esvaziar desses sentimentos. Este ciclo de trabalho se torna extremamente danoso a psique humana, que por sua vez esvazia o desejo do sujeito de estar ali exercendo sua função.
A pessoa que constantemente está experienciando este tipo de trabalho, cria mecanismos que irão explorar o sofrimento psíquico a nível de adoecimento, pois este trabalho acabou por gerar insatisfação e desconforto emocional, um ambiente onde o trabalho é satisfatório não irá trazer sofrimento em contramão disso o sofrimento que irá produzir trabalho uma vez que colocará o sujeito a se desdobrar cada vez mais a dar conta de tarefas que por sua vez podem não ser suas, além de um adoecimento psíquico que de início será discretamente ignorado.
Contemporaneidade e o Trabalho: A Armadilha do "Empreendedor de Si Mesmo"
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Quando falamos de trabalho na contemporaneidade existe aí uma armadilha onde muitos não percebem: se estou buscando de forma desenfreada uma liberdade, levando em consideração que não preciso do outro para alcançar tal objetivo, temos o que chamamos de uma crise de gratificação, visto por sua vez que essa “gratificação” se pressupõe do reconhecimento desse outro. Surgindo aí uma dúvida! Quem está me vendo, quem diz para mim que sou bom no que faço e me recompensa por isso?
Um outro exemplo de que esta idéia tão valorizada de si demonstra uma desregulamentação, surge de forma imprescindível através de empresas que coagem o sujeito a performar constantemente, a ter o mais alto desempenho sempre, forçando-o a produzir cada vez mais de forma ininterrupta como se fossem práticas normais, fazendo parte das regras e normas empresariais.
Hoje a presença de um chefe já não se faz tão necessário para que as métricas sejam alcançadas, os próprios contratos de prestação de serviço já são suficientes para o funcionário se colocar nesse papel sem interrupções.
Se por sua vez vivenciamos este cenário no ambiente de trabalho, automaticamente eu sou um empreendedor de mim mesmo, cruzo nesta função comigo mesmo. Não permito descanso, já que estou vislumbrando o ponto de chegada, o que na lógica do desempenho, nunca haverá um ponto de chegada.
Entramos neste ponto onde a mente converge com o corpo, na psicanálise Freud cria um conceito onde a pulsão representa a fronteira entre o corpo e a mente, ela é representada psiquicamente por meio de cada coisa e palavra dita, podendo ser representadas pelo nosso inconsciente surgindo através de coisas, simbologias, onde não somos capazes de nomear, ou pelo nosso consciente que é quando tudo o que pensamos será representado pela palavra, gestos, direcionados ao suposto objeto de desejo. Quando representamos tudo de forma consciente, temos um investimento direto sobre o objeto se formando ali um afeto, e essa relação toda entre o sujeito e sua pulsão foi e continua sendo constantemente observada em toda a teoria psicanalítica.
Saúde Mental: A Exploração do Sofrimento e o Colapso do Esgotamento Profissional
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A maneira em que o ser humano se organiza diante do trabalho vai influenciar diretamente o seu funcionamento mental, podendo por diversas vezes influenciar no seu equilíbrio psicossomático tornando-o frágil ou até mesmo forte, a depender diretamente das condições que serão impostas neste ambiente laboral.
Podemos considerar que conteúdos significativos ao ser humano podem dizer respeito a ambientes flexíveis, onde esse trabalhador consiga expressar suas aspirações, utilizando sua criatividade e transformando o ambiente a modo que possa realizar seus desejos diante a essa realidade. Há lugares e atividades que possibilitam a pessoa a se adaptar, mesmo que minimamente a sua personalidade, envolvendo suas necessidades e potencialidades, apresentando como mais naturais e saudáveis a esse sujeito.
Porém toda essa vivência é subjetiva a cada um e pode se localizar de forma diferente no corpo de cada um, levando a um conflito interno com o seu superego “carrasco” que por sua vez exige um desempenho ininterrupto partindo para um excesso de autocritica desequilibrando emocionalmente o sujeito, levando-o de certa forma a uma repressão diante as atividades espontâneas, o que pode por sua vez ser o inicio de um colapso, uma forma do nosso corpo se mostrar ineficaz ao seu funcionamento, é onde surge a fadiga, o cansaço, o estresse, a construção do que que hoje conhecemos como o Burnout ou “Síndrome do Esgotamento Profissional” que desde janeiro de 2022 é reconhecida pela OMS como doença ocupacional.
Essa condição leva o ser humano a colapsar diante das suas atividades, paralisando, se distanciando e se sentindo impotente.
Principais Sintomas do Burnout
A seguir alguns pontos relevantes ao Burnout:
· Sentimentos de exaustão, esgotamento mental, falta de energia;
· Distanciamento do próprio trabalho;
· Sentimentos negativos ou cinismo relacionados ao próprio trabalho;
· Baixa produtividade e eficácia profissional;
· Melancolia, autodepreciação;
Por outro lado, o que está associado aos autos índices de burnout é a postura organizacional diante a esses funcionários que por sua vez se aplica um ambiente altamente burocrático, impossibilitando a autonomia do sujeito que é obrigado a seguir normas extremamente rígidas, sofrendo instabilidades, mudanças frequentes, falta de comunicação entre equipes, ambiente físico comprometedor e com riscos. Em alguns casos esse profissional pode passar por dificuldades em se padronizar devido ao seu gênero, estado civil, nível educacional, ou por se submeter a sobrecargas laborais, falta de suporte social e familiar, valores, normas culturais ou expectativas frustradas de crescimento profissional.
Em 2022 a ISMA – International Stress Management Association, informou que o Brasil aparecia como segundo país com mais casos dessa doença, atingindo 30% de 100 milhões de trabalhadores segundo a ANAMT - Associação Nacional de Medicina do Trabalho, são dados alarmantes e estima-se que a cada ano que passa milhares de pessoas serão afastadas dos seus empregos devido a problemas relacionados a saúde mental.
Conclusão: O Burnout como Sintoma da Cultura
Dentro da psicanálise interpretamos o burnout como um conflito interno muito profundo, onde o sujeito faz demandas muito rígidas sobre si, o que por sua vez é intensificada cada vez mais pela cultura da hiperprodutividade, não se trata apenas pelo excesso de trabalho, mais sim por realizar um trabalho sem prazer, que gera esgotamento, ineficácia, tornando-se uma repetição mecânica. O burnout mantém laços estreitos com a depressão, onde o sofrimento psíquico relativo ao trabalho, vai resultar a perdas constantes, decepções, baixa autoestima que levará essa pessoa ao fracasso quanto a busca dos seus ideais ao poder exercer um trabalho criativo e relevante. O sujeito perde a conexão com o que faz, com seus propósitos sentindo-se como uma peça de engrenagem sem sentido, sem vida, o trabalho acaba se transformando em um “gozo” destrutível, onde o sujeito não consegue parar, mesmo que sofrendo, ele está em busca de um ideal de Eu inalcançável, resultando a uma raiva narcísica contra si mesmo.
Numa sociedade onde a hiperprodutividade se fundiu a cultura, nunca se foi tão necessária se ater aos fatos em que o ser humano está cada vez mais adoecido mentalmente e que mesmo diante da era digital que permite acesso ilimitado ao mundo, ainda assim existe uma barreira diante aos olhos da verdade.
Cuide de sua saúde mental!
Cuide de você!
Escrito por Lucelia Perez
Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.