O problema de tratar o interesse por fantasia ou games como algo "infantil" ou apenas um "vício", um excesso a ser excluído do comportamento do sujeito, é que essa visão ignora como a mente humana realmente se organiza. Ninguém acorda aos 18 anos com uma identidade pronta, entregue pelo correio. A gente se constrói por meio de ensaios, e esses mundos (seja o de um RPG online ou uma saga literária como Harry Potter) atualmente são os palcos onde alguns desses ensaios acontecem.
O "Avatar" nos games como uma tentativa de identidade
![]()
Foto: Foto: Divulgação / Activision
Na adolescência (e em muitas crises da vida adulta), o "Eu" está em obras. É um canteiro de entulho. Quando você escolhe uma classe em um jogo ou se identifica com a ética de um personagem de um livro de fantasia, você está testando uma roupagem psíquica.
Não é que você queira ser um elfo ou um caçador de monstros, você quer sentir como é ter o impacto que eles têm no mundo. No jogo, suas decisões têm peso. Se você falha na estratégia, o grupo morre. Isso oferece algo que a vida real, muitas vezes, nega ao jovem: a sensação de que ele é um agente, de que ele causa efeito. O jogo compensa a sensação de ser invisível ou irrelevante na estrutura social ou familiar.
A fantasia e os jogos como suporte emocional
Livros e jogos fornecem o que chamamos de suporte simbólico. A realidade crua é insuportável. Se você olhar direto para o sol, você fica cego, da mesma forma que, se olhar "sozinho" para alguns de seus traumas ou para a pressão de "ser alguém", você não suporta e é aí que o auxílio emocional de um profissional por vezes se torna necessário, ter alguém para te acompanhar nesse processo de elaboração da dor e angústia de ser, pode ser fundamental.
Mas podemos dizer que esses mundos ajudam também em partes importantes, pois a fantasia funciona como um filtro. Você não está lidando com a sua depressão, você está lendo sobre um inverno que nunca acaba. Você não está lidando com um pai autoritário, você está enfrentando um império tirânico. Essa distância é o que permite que a mente processe o afeto sem ser destruída por ele. É um trabalho de tradução: você transforma uma angústia sem nome em algo que tem rosto, regras e uma forma de ser combatido.
Excesso de jogos e o vazio: Quando o game vira sintoma
![]()
A gente precisa separar o uso da fantasia como ferramenta necessária para o desenvolvimento psíquico saudável, do seu uso como anestesia.
A análise entra quando o sujeito percebe que está "farmando" conquistas virtuais apenas para não ter que encarar o silêncio do quarto. Existe uma linha tênue entre usar o jogo para ganhar fôlego e usá-lo para fugir da realidade.
Sinais de alerta: O cansaço que não passa
O cansaço que não passa: Você passa dez horas jogando e termina mais exausto do que quando começou, porque aquele esforço não foi para você, foi para manter a realidade longe.
A ilusão da "vida fake" no servidor
A "vida fake": Você sente que o seu "eu" de verdade é o que está no servidor, enquanto o corpo que toma banho e come é só um resto descartável.
A perda da capacidade de lidar com frustrações
A perda da capacidade de frustração: No jogo, você morre e volta. Na vida, as perdas são definitivas. Quando o sujeito perde a habilidade de lidar com o "não" e se refugia onde o controle é garantido, a fantasia parou de ser um ensaio e virou uma prisão.
Como a psicanálise ajuda a lidar com o vício em jogos?
![]()
Muitas vezes, a pessoa chega ao consultório achando que vamos mandar ela "largar o vício" ou "crescer". Não é isso. O trabalho é entender o que você está tentando comunicar através desses interesses.
Se você só se sente potente sendo um mestre de guilda, o que na sua vida real está castrando a sua potência? Se você só encontra conforto em mundos onde a magia resolve o que a lógica não alcança, qual é o conflito que a sua lógica atual não está dando conta de digerir?
O processo trata da integração dessas partes. O objetivo é que você não precise de um portal para se sentir vivo. É trazer a autoridade que você tem no comando de um personagem para a gestão da sua própria história. É parar de usar a fantasia para se esconder de quem você é e começar a usá-la para entender quem você pode se tornar.
Crescer não é abandonar a imaginação. É aprender a usar a força que você descobriu nela para suportar o peso da realidade (que é bem mais sem graça, é verdade), mas é a única onde os encontros são reais.
Escrito por Daiane Romano Psi
Psicanalista Clínica de adultos, adolescentes e crianças. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ, Saúde Mental na Escola pela UFRGS. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.