Dizer que o amor cura é um dos cliches mais repetitivos que existe, mas a verdade é que o amor faz algo muito mais complexo e bonito, ele reorganiza. E toda reorganização, para acontecer exige inevitavelmente uma dose de caos. Freud fala muito sobre amor, em alguns de seus escritos ele diz sobre o amor ter essa espécie de poder, de reorganizar o narcisismo, porque "ao amar o sujeito reinveste em si mesmo, deseja tornar-se melhor, busca reconhecimento no olhar do outro" e nesse movimento se entrega, junto com parte de sua consistência psíquica. Essa frase também nos lembra de uma das dinâmicas mais encantadoras e ao mesmo tempo assustadora da nossa mente, a forma como o afeto mexe no do nosso "amor-próprio". Amar não é simplesmente um ato puramente abstrato de entrega ou de desapego, ele é na realidade uma das maiores reformas que o nosso eu pode sofrer. Por causa de um detalhe, amar não é só olhar para o outro, é olhar para si mesmo através dos olhos de outra pessoa e ter a coragem de mudar o que se vê ali.
O que acontece na nossa mente quando começamos a gostar de alguém?
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Quando começamos a nos importar e gostar de alguém de verdade, acontece um movimento que é sutil e violento ao mesmo tempo, por isso, por vezes ficamos em choque, sem palavras, assustados e não sabendo como nomear inicialmente. Para dar espaço para alguém, a gente precisa abrir mão de um pedaço do nosso orgulho e da nossa armadura. Como diz a teoria freudiana, nesse movimento a gente entrega uma parte da nossa própria consistência psíquica, do nosso sossego e da nossa segurança na mão do outro. É o famoso ficar sem chão, onde a nossa estabilidade passa a depender, um pouco, de um terreno que não controlamos. Mas é exatamente aqui que a mágica acontece, pois ao amar, o sujeito reinveste em si mesmo e deseja tornar-se melhor. O carinho, o respeito e o olhar desse outro nos devolvem uma imagem renovada de nós mesmos. O amor nos faz desejar evoluir, queremos ser maiores e mais inteiros porque buscamos o reconhecimento no olhar de quem amamos. O afeto do outro funciona como um combustível que nos faz querer progredir na vida, trabalhar melhor, nos cuidar mais e evoluir. É uma espécie de movimento circular, você investe no outro, e esse investimento volta para você em forma de autoestima e força para crescer.
Medo de amar: Por que a entrega emocional assusta tanto?
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Mas essa entrega toda assusta e para muitas pessoas o amor é vivido como uma ameaça real de destruição. Esse medo não surge do nada, ele está profundamente ligado a problemas internos e em feridas antigas do nosso desenvolvimento. É aqui que Winnicott entra para nos ajudar a compreender muitas coisas que aconteceram conosco, sem que tenhamos consciência do impacto, certos ambientes e relações que fazem parte da nossa história. Para que o bebê consiga desenvolver uma mente saudável, forte e resistente aos sofrimentos futuros, ele precisa de um ambiente que seja "suficientemente bom", uma base segura que ofereça sustentação e proteção contra as angústias do mundo. Quando esse ambiente falha, quando o indivíduo cresce sem essa sensação de segurança e vivencia invasões ou abandonos precoces, a mente cria defesas rígidas para sobreviver. Para quem sofreu com essas falhas na base, a ideia de entregar parte da consistência psíquica a outra pessoa evoca o fantasma do aniquilamento. O sujeito passa a associar o ato de amar à perda total de si mesmo, ao medo de ser engolido pelo outro ou de ser novamente desamparado, deixado na escuridão. Nesses casos, o sujeito se fecha como uma fortaleza de pedra, desenvolve defesas rígidas e a pessoa prefere o isolamento seguro da solidão ao risco doloroso do afeto.
Como a psicanálise ajuda a superar o medo da vulnerabilidade?
O problema aqui é que, embora essa fortaleza proteja contra a dor, ela também impede a vida de acontecer e uma hora ou outra, a angústia surge. É nesse tipo de situação, de aprisionamento interno, que o processo de análise pode fazer com que algumas reviravoltas aconteçam, durante a análise não buscamos apenas decifrar o inconsciente, mas também oferecemos uma nova experiência de acolhimento. A análise funciona como uma segunda chance para o desenvolvimento psíquico, uma espécie de ambiente suficientemente bom onde o sujeito pode, finalmente, experimentar a vulnerabilidade sem o medo de ser destruído. À medida que o paciente revive suas dores na transferência e percebe que o analista suporta suas angústias sem desaparecer e sem invadir seu espaço, as defesas começam a ceder. A rigidez do passado dá lugar aos questionamentos, velhas certezas sobre o perigo do outro começam a desmoronar e a pessoa descobre que talvez seja possível abrir as portas da fortaleza sem que sua estrutura desabe.
É possível amar sem perder a própria identidade?
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O reconhecimento, o afeto e a aprovação no olhar de quem a gente ama deixa de ser visto como um sinal de fraqueza ou perigo, passando a ser compreendido como parte do que nos torna humanos. O sujeito compreende que entregar uma parte de si não significa desaparecer, e sim viver, onde perder o chão por um instante é o único jeito de aprender a voar. A análise devolve ao sujeito a capacidade de arriscar, fazendo com que ele entenda que o amor só nos reorganiza porque temos finalmente a segurança interna necessária para nos perdermos um pouco no outro e, através desse movimento, nos encontrarmos muito mais inteiros.
Escrito por Daiane Romano Psi
Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.