8 de julho de 20264 min de leitura

Quando tudo parece bem: O que fazer com a angústia do vazio emocional?

Daiane Romano

Daiane Romano

AUTOR
PsicanalistaReg: ABPC
Quando tudo parece bem: O que fazer com a angústia do vazio emocional?

Há um tipo de desconforto que as vezes surge quando tudo parece estar bem. O trabalho segue seu curso, os compromissos continuam existindo, as relações permanecem as mesmas, os dias acontecem normalmente. Ainda assim, algo insiste em não fazer sentido, não chega a ser uma tristeza, é uma sensação difícil de colocar em palavras, uma angústia, como se existisse uma parte de si que sente falta de algo, uma espécie de pergunta interna, que fica sem resposta.

​A Urgência em Preencher o Vazio Existencial

Uma pessoa sozinha olhando para uma paisagem urbana cinza desfocada, cercada por caixas e cadeiras vazias em um apartamento moderno, simbolizando o questionamento existencial

​Vivemos cercados pela ideia de que qualquer falta precisa ser rapidamente resolvida. Se uma sensação de angústia incomoda, logo aparece uma nova meta, um novo consumo, uma nova distração ou um novo projeto capaz de ocupar o tempo, para o desconforto do vazio não ser sentido.

​Nem sempre, porém, aquilo que parece vazio corresponde a uma ausência.

O Que Revela o Silêncio e a Quietude

​Em certos momentos, essa sensação surge quando diminuem as distrações que nos mantinham afastados de nós mesmos, o silêncio interrompe o movimento constante e permite que venham à superfície lembranças dolorosas, perdas atravessadas sem o processo de luto adequado, desejos abandonados antes mesmo de serem reconhecidos e expectativas construídas para corresponder ao olhar do outro.

​É curioso perceber que aquilo que chamamos de vazio, muitas vezes, está repleto de experiências que nunca encontraram uma forma de serem elaboradas. Permanecem como afetos sem palavras, conflitos silenciados, perguntas respondidas cedo demais ou emoções que aprenderam a sobreviver trancadas dentro de nós.

​Pode ser esse o motivo de tanta inquietação diante dos momentos de quietude. Não porque o silêncio produza esse conteúdo, mas porque ele reduz o ruído que durante a maior parte do tempo nos impede de ouvir muitas dessas coisas guardadas.

Angústia, Desejos Interrompidos e a Nossa História Não Compreendida

​Mas a angústia nem sempre nasce apenas daquilo que foi vivido, por vezes ele também se organiza em torno do que nunca encontrou condições para existir. Há desejos que permaneceram interrompidos antes mesmo de se tornarem conscientes. Há partes da nossa própria história que jamais chegaram a ser compreendidas e por isso permanecem apenas como uma sensação estranha, difícil de nomear.

​Essa experiência também desfaz uma crença bastante comum: a de que sabemos exatamente quem somos.

​Enquanto desempenhamos nossos papéis cotidianos, esse tipo de questão parece sem sentido. Quando nossas referências sobre quem somos somem e não estamos sendo: filhos, pais, profissionais... Abre-se um espaço onde as certezas perdem força e aspectos de nós, antes invisíveis, começam a aparecer.

Vazio Interno e Depressão: Quando Buscar Ajuda

close-up das mãos de duas pessoas em uma mesa de madeira, com uma mão confortando a outra, ao lado de uma planta em um vaso, sugerindo apoio e terapia

​Em algumas circunstâncias, essa sensação pode fazer parte de quadros clínicos que exigem cuidado e acompanhamento especializado. Ainda assim, responder imediatamente a todo vazio como se fosse apenas um sintoma a ser eliminado talvez nos impeça de compreender o que ele procura expressar. Nem toda lacuna precisa ser preenchida no instante em que aparece, algumas precisam antes, ser habitadas.

​Suportar esse tempo de "não saber" costuma ser uma das tarefas mais difíceis, existe um impulso quase automático para fechar a ferida, encontrar uma explicação ou produzir uma resposta definitiva. Mas é nesse intervalo que uma lembrança encontra linguagem, um desejo deixa de existir apenas como incômodo e partes da nossa história que não compreendemos até então, começam pouco a pouco a fazer sentido. Nem todo vazio significa que existe uma dor reprimida, em certos momentos, ele é apenas o nome provisório de algo que ainda está procurando uma forma de existir.

O Desejo e a Incompletude como Motor da Vida

Uma escultura surrealista de uma figura humana surgindo de um bloco de mármore cru, com metade esculpida e a outra rústica, simbolizando a incompletude humana e a transformação contínua

​Existe uma fantasia bastante comum de que a felicidade seria alcançada quando nada mais faltasse, como se uma vida plenamente realizada fosse também uma vida completamente preenchida. Mas uma existência sem qualquer falta acaba também por se tornar uma existência sem perguntas, sem criação e sem desejo.

​É justamente porque nunca estamos completamente prontos que continuamos nos transformando, buscamos novos encontros, reconstruímos sentidos, revemos escolhas e encontramos maneiras diferentes de habitar a própria história. A incompletude não é um defeito da experiência humana, ela é aquilo que nos mantém em movimento.

​Isso não significa que todo vazio deva ser suportado em silêncio, alguns dizem sobre sofrimentos profundos e merecem cuidado. Outros, entretanto, não anunciam uma perda, pelo contrário, revelam que existe algo em nós que ainda está em processo de nascer.

​Quem sabe, a questão não seja aprender a preencher cada vazio que encontramos pelo caminho, mas reconhecer que alguns deles estão apenas nos mostrando que a vida ainda não terminou de nos transformar.

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Daiane Romano

Daiane Romano

AUTOR
PsicanalistaReg: ABPC Palhoça - SC

Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.