15 de junho de 20268 min de leitura

Sindrome do Impostor : Talvez você seja seu próprio inimigo e não saiba

Lucelia Perez

Lucelia Perez

AUTOR

Profissional Verificado

Sindrome do Impostor : Talvez você seja seu próprio inimigo e não saiba

Quem nunca teve questões com a autoimagem um dia na vida? E não só imagem, mas também sobre sua capacidade de ser um bom profissional, um bom aluno, um bom filho? Eu acredito que uma boa quantidade de pessoas deva passar por isso pelo menos uma vez em sua trajetória de vida, e não importa a idade, claro que podemos levar em conta as influências em nossa constituição com sujeito, nossa família, escolas, amigos, todos os cantinhos que nos colocamos, acabam que influenciando demais e nos fazendo olhar no espelho e pensar se estamos no caminho certo, fazendo o certo diante do que escolhemos ser.

A voz da autossabotagem: perfeccionismo, ansiedade e procrastinação

Uma mesa com um caderno em branco e uma lixeira transbordando de papéis amassados, simbolizando o perfeccionismo, a procrastinação e a autossabotagem

​Vem uma série de questionamentos, cobranças e na maioria das vezes nem precisa ser de alguém diferente, elas vêm de nós mesmos, daquela voz que não se cansa em se fazer presente constantemente, que é irritante na maioria das vezes, como se fosse a personagem Ansiedade de Divertidamente 2 sabem?! Nos manipula, de uma maneira incompreensível. Esses pensamentos que surgem do além, nos deixam extremamente confusos e neuróticos, parece que sempre precisamos achar um problema, um mínimo defeito em tudo o que fazemos, só para nos sabotar... buscamos ser excelentes fazer além do esperado por muitos, buscamos qualidade, perfeccionismo, passamos horas a fio tentando descobrir maneiras em se alcançar sonhos e metas, e por isso muitas vezes paralisamos diante de tanto “excesso”, e mesmo assim, quando conseguimos parece que ainda falta e que não foi o suficiente e mais uma vez paramos, pensamos que somos uma fraude, nos julgamos, paralisamos diante da realização e automaticamente procrastinamos, isso mesmo, somos mestres em procrastinar diante daquilo que temos medo de encarar realmente, e sabe que nem precisa ser realmente por medo, na maioria das vezes fazemos isso por já conhecer exatamente o processo e deixamos de lado, pra ultima hora, pro último segundo, seja um projeto ou só uma tomada de decisão onde só precisa dizer “sim ou não”, fazemos isso sem perceber e depois nos arrependemos, nos culpamos por acreditar não ser tão bom, só que no fundo a gente sabe que é. Pensamentos em excesso nos levam a exaustão, a ser ansiosos, nos levam ao estresse.

A Síndrome do Impostor sob a ótica psicanalítica

​Procrastinar é algo que nos liga diretamente a nos boicotar até mesmo porque sabemos fazer bem muitas coisas, muitos passam anos se especializando em algo, estudando, ou passam anos aprendendo com grandes mestres, mais por algum infortúnio não se acham bom o suficiente, por pensar demais. A Síndrome do Impostor hoje é vista como um diagnóstico, simplesmente porque ela pode paralisar, deixar o sujeito realmente sem ação diante seus méritos ou conquistas. Mas o que quero trazer aqui é uma visão que pode fazer sentido para você ao fazer uma autoanálise sobre sua vida, quero trazer um pouco sobre esses sentimentos na visão psicanalítica.

​Conhecemos bem a angústia, sabemos que ela pode surgir diante de muitas situações em nossas vidas, mas você consegue perceber o quanto ela é vista ao ligarmos diretamente a nossa autoimagem? Pesa muito mais do que parece, e é exatamente isso que acontece, para este caso todas as conquistas de certa forma são impedidas de serem internalizadas dentro do sujeito, e ele passa a se sentir como uma fraude que logo será descoberta. Esse sofrimento psíquico surge de uma desconexão entre o sujeito e sua percepção subjetiva ao se sentir inadequado diante de tal situação.

Como justificamos?

Um pequeno e forte broto verde crescendo através do concreto rachado, iluminado pelo sol, simbolizando a resiliência e a força ao superar o preconceito e as barreiras sociais

​Como todos nós somos constituídos de maneira única, nossa subjetividade nos diferencia de todos aqueles que conhecemos, e muitos questionam. “Mas tudo está ligado à nossa infância, em como fomos criados, como crescemos diante de um todo?” Sim e como está, eu digo que chega a ser injusto a nossa psique ter capacidade de fazer tudo isso conosco. Podemos dizer que essa maneira de ser está ligada diretamente com o excesso de cobrança dentro do núcleo familiar. Conviver com pais exigentes ao que se refere a desempenho pode contribuir com essa falta de confiança em si. Excesso de críticas no ambiente social e familiar alimentam o sentimento de desvalorização da própria capacidade.

​Além da insegurança, o sujeito também vive uma baixa autoestima, se sente inferior e busca constantemente o perfeccionismo. Tudo isso leva ao medo de um dia ser exposto a fraude, e ser descoberto, pois, se acha extremamente incompetente e incapaz, existe uma apreensão que toma conta, que envolve seu medo com o medo de ser exposto publicamente, e que leva a uma série de comportamentos e descontroles emocionais.

O impacto do patriarcado e do preconceito na autoconfiança

​Um fato interessante é que estes fatores são mais comuns em mulheres, principalmente por viverem em meios extremamente masculinos, o patriarcado moldou um ambiente onde mulheres são condicionadas a exercer o papel de submissão, não à toa até a atualidade muitas precisam mostrar que merecem os seus papéis na sociedade, principalmente aquelas que ocupam cargos importantes em empresas, e que estão mais vulneráveis a esta síndrome. Sem falar nas mulheres negras que sofrem mais ainda, devido ao preconceito da raça.

Pertencimento ou despertencimento?

​Já ouvi e li sobre muitos casos, onde pessoas relatam constantemente não se sentirem pertencentes nos locais que frequentam, grupos de amigos, ambientes acadêmicos ou ambiente de trabalho, como exemplo falarei do trabalho pela maior identificação clínica. Essas pessoas acreditam que o seu sucesso se deve a circunstâncias favoráveis por não achar que são merecedoras de suas conquistas, ou até acreditam ser dotados de habilidades de enganar os outros, fazendo elas acreditar que são mais capazes do que são, mas na verdade se acham incompetentes diante de suas funções, toda vez que recebem um elogio ou são indicados a promoções não conseguem aceitar com facilidade, pois, atribuem esses fatores como se fosse “sorte”.

​Porém, para estas pessoas soma-se o fato de acreditar que se alguém um dia descobrir quais sentimentos estão ligados a esse fato, vai vê-lo como uma tremenda farsa e que não mereceu nada daquilo. Temos aqui um sujeito com grande sofrimento psíquico diante da sua realidade.

​Sofrimentos desse tipo são vistos como a síndrome do impostor, ou seja, a pessoa acredita não ser merecedora do seu sucesso por se achar incompetente, além disso vai ter sempre uma forte sensação de que um dia serão descobertos a sua falta de capacidade e habilidade profissional, ou até mesmo habilidade de enganar os outros.

​Este é um exemplo clássico e que vemos constantemente na clínica, pessoas que diminuem sua inteligencia e sua competência diante dos outros, devido as “crenças irracionais” que levam ao desencadeamento de diversos sintomas relacionados a síndrome do impostor.

​Mesmo capacitados, com diplomas, premiações e reconhecimentos profissionais, essas pessoas constantemente se questionam diante de suas habilidades, e acabam por atribuir seu êxito a fatores externos, diminuindo sua própria realização.

A paralisia diante do sucesso

Uma poderosa peça de xadrez Rainha projetando a sombra de um pequeno peão, ilustrando a Síndrome do Impostor e a desconexão entre a real competência e a baixa autoestima

​Um outro sintoma comum é o medo de fracassar e não conseguir corresponder as expectativas, medo esse que paralisa. Este medo faz com que o sujeito passe a evitar situações diversas, recusa oportunidades de crescimento, evitam novos desafios, ficam inertes.

O medo constante

​As pessoas que vivenciam este sofrimento sofrem constantemente este medo de ser desmascarado, sentem-se como fraudes, temem suas próprias falhas e tem medo do mundo descobrir.

​Por estes motivos buscam constantemente o perfeccionismo, o que resulta em estados crônicos de ansiedade e estresse, essas pessoas vivem em constante estado de alerta, e que devido à pressão constante vivem esgotadas emocionalmente, experienciam problemas relacionados a saúde mental e estão sempre insatisfeitas com a vida, mesmo vivendo diante de conquistas e sucessos.

​Vale lembrar que a síndrome do impostor não é uma condição clínica oficial, mas que mantém um padrão de comportamentos e pensamentos e seus impactos podem ser tão grandes quanto a transtornos de ansiedade ou depressão, ambos podem ser identificáveis através da análise e processos terapêuticos, o autoconhecimento pode ser uma ótima ferramenta de auxílio em busca de ajuda.

​Na sociedade atual, devido as altas demandas todo profissional de sucesso passa a ter muito mais cobranças, as entregas são a curto prazo, o que por sua vez em pequenas doses leva ao adoecimento, o sofrimento psíquico, gerando angústias ao sujeito. Devido a esses fatores, é de extrema importância promover apoio psicológico seguro e de confiança a este profissional, garantindo saúde mental e bem-estar do sujeito.

Por fim....

​Esta síndrome pode levar você a crer que seu pior inimigo é você mesmo, criando imagens negativas sobre si., ela vai fazer você se colocar em último, comprometendo suas chances de crescer. Evite alimentar esses pensamentos de incapacidade e derrota, não pense que é fraco e não merece tudo o que estiver no seu caminho. Acredite que se chegou até você é porque certamente seus esforços estão sendo vistos. Aprenda a reconhecer sua capacidade como pessoa, confie no seu potencial e na sua identidade. Valorize suas conquistas e busque ajuda caso não consiga sozinho.

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Lucelia Perez

Escrito por Lucelia Perez

Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.

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