A necessidade de estar sempre ocupado é uma das maiores características encontradas na sociedade atualmente, mantemos agendas lotadas, rotinas exaustivas e recorremos a estímulos visuais e sonoros no menor sinal de pausa. Essa busca constante por distração em algumas pessoas é um mecanismo de defesa contra o silêncio, a pressa e o excesso servem para esconder e evitar o contato com a angústia que surge quando o mundo externo desacelera.
Quando não há nenhuma tarefa a cumprir, meta a alcançar ou tela para olhar, precisamos lidar com a nossa própria presença, é nesse instante que surgem os pensamentos mais profundos, as frustrações reprimidas e o desamparo que existe enquanto característica humana.
A ocupação compulsiva funciona como uma tentativa de anestesiar esse desconforto, criando a ilusão de que, enquanto estivermos correndo, não seremos alcançados por aquilo que nos faz sofrer, mas o que não é elaborado não desaparece, apenas se acumula no corpo, na qualidade do sono e nos sintomas cotidianos que tentamos ignorar.
Ao eliminarmos o vazio da nossa rotina, eliminamos também a possibilidade de processar o que vivemos.
A importância da pausa para a digestão mental
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A pausa não é a ausência de produtividade, nem um tempo desperdiçado(pelo menos, não deveria ser), ela é um espaço indispensável, onde a mente se organiza, elabora e integra as experiências vividas. Assim como o corpo precisa de tempo para digerir o que consome, existe uma elaboração e integração mental que só acontecem quando os estímulos externos param.
Sem o ócio, os acontecimentos e as demandas diárias possuem uma velocidade que impede qualquer elaboração. O resultado disso é o aumento da ansiedade, irritabilidade sem motivo aparente e um esgotamento que não se resolve com uma noite de sono. Esse cansaço persistente não é da ordem do físico, mas sim do psíquico, pois a mente continua trabalhando em regime de sobrecarga, e continua tentando processar o excesso, mesmo com o corpo parado.
Saturação psíquica e a perda da capacidade de simbolização
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Quando preenchemos cada segundo do dia com trabalho, informações, podcasts, notificações e tarefas, geramos uma saturação psíquica. Em termos práticos, impedimos a capacidade de simbolização e simbolizar é o ato de traduzir o que sentimos em palavras, ideias e sentidos, se um sofrimento ou uma insatisfação não encontra espaço para ser simbolizado, ele se transforma em sintoma, seja na forma de uma crise de ansiedade, de uma compulsão ou de uma exaustão inexplicável.
O sujeito que corre o tempo todo perde a capacidade de se escutar e passa a operar apenas no modo de reação, ele não escolhe seus caminhos, apenas reage aos estímulos dos Outros.
O silêncio como motor do inconsciente e da criatividade
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O silêncio, embora inicialmente desconfortável, quebra essa repetição automática, ele nos força a olhar para o que está gerando a ansiedade, em vez de apenas tentar fugir dela através de uma nova tarefa.
É no momento em que não estamos respondendo a nenhuma demanda externa dos outros, que o inconsciente ganha espaço para trabalhar de uma forma diferente e põe em prática a sua incrível capacidade de criar, seja uma solução para um problema prático, uma nova perspectiva de vida ou uma expressão artística, depende de quanto espaço vazio há para a nova criação.
Quando a mente está cheia, não há espaço para o novo, o que acontece acaba sendo apenas a repetição de padrões conhecidos.
A criatividade é uma das formas mais saudáveis e potentes de diminuir a angústia, ela nos permite transformar o mal-estar em algo novo que faça sentido para nós, ao invés de apenas esquecer temporariamente o desconforto através do trabalho excessivo ou do uso compulsivo de tecnologia, passamos a usar a nossa energia psíquica para construir novas formas de lidar com a dor. O ato criativo dá contorno, cor e voz ao que antes era apenas um aperto no peito sem nome.
Sustentar o vazio: o caminho para uma vida mais autêntica
Essa mudança profunda exige o esforço consciente de suportar os pequenos intervalos do dia a dia, permitir-se momentos de ócio ou de mera contemplação, embora isto não seja opcional para algumas pessoas, o manejo clínico e cotidiano desses detalhes é necessário para que a ansiedade deixe de ser um motor desgovernado que nos acelera constantemente e assim consigamos ter novas ferramentas para lidar com as angústias da vida.
Quando abrimos espaço para o silêncio, o primeiro impacto pode ser difícil, pois ele traz à tona as nossas faltas, os nossos limites e as nossas imperfeições mas é justamente a partir do reconhecimento da nossa falta que a nossa subjetividade se move e se desenvolve. É no vazio que descobrimos o que somos, fora das nossas funções profissionais, das nossas obrigações sociais e das expectativas alheias. Sustentar o não-fazer é o que nos permite encontrar caminhos mais singulares, autênticos e menos sintomáticos de existir.
Daiane Romano Psi
Psicanalista de adultos, adolescentes e crianças. Minha prática clínica é feita com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e estudos teóricos contínuos. Tenho como fundamentos, o compromisso ético e a autencidade. Sou membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.